quinta-feira, setembro 03, 2009

Era das utopias

Boa alternativa no horário do Jornal Nacional: Era das Utopias, uma série, do cineasta Silvio Tendler, que estreou na Tv Brasil dia 31 de agosto, às 20h30.






domingo, junho 28, 2009

O militante (por Negri e Hardt)





“Na era pós-moderna, enquanto a figura do povo se dissolve, o militante é o que melhor expressa a vida da multidão: o agente de produção biopolítica e de resistência ao Império. Quando falamos de militante, não estamos pensando em nada parecido com o triste, ascético agente da Terceira Internacional, cuja alma estava profundamente permeada de razões de estado soviéticas, da mesma maneira que a vontade do papa estava cravada nos corações dos cavaleiros da Companhia de Jesus.”
(...)
“Hoje, depois de tantas vitórias capitalistas, depois que as esperanças socialistas murcharam em desilusão, e depois que a violência capitalista contra o trabalho foi solidificada sob o nome de ultraliberalismo, por que essas instâncias de militância ainda surgem, por que as resistências se aprofundam, e por que a luta reemerge continuamente com novo vigor? Deveríamos dizer, de imediato, que essa nova militância não repete simplesmente as fórmulas organizacionais da velha classe operária revolucionária. Agora o militante não pode sequer fingir ser um representante, mesmo das necessidades humanas fundamentais dos explorados. A militância política revolucionária hoje, ao contrário, precisa redescobrir o que sempre foi sua forma própria: atividade não representativa, mas constituinte. A militância atual é uma atividade positiva, construtiva, inovadora. Esta é forma pela qual nós e todos aqueles que se revoltam contra o domínio do capital nos reconhecemos como militantes. Militantes resistem criativamente ao comando imperial.” (...) “Essa militância faz da resistência um contrapoder e da rebelião um projeto de amor.”
“Há uma lenda antiga que pode servir para iluminar a vida futura da militância comunista: a de São Francisco de Assis. Examine-se a sua obra. Para denunciar a pobreza da multidão ele adotou essa condição comum e ali descobriu o poder ontológico de uma nova sociedade. O militante comunista faz o mesmo, identificando na condição comum da multidão sua enorme riqueza. Francisco, em oposição ao capitalismo nascente, recusou todos os instrumentos de disciplina, e em oposição à mortificação da carne (na pobreza e na ordem constituída) propôs uma vida de alegrias, incluindo todos os seres e a natureza, os animais, a irmã lua, o irmão sol, as aves do campo, os humanos pobres e explorados, juntos contra a vontade de poder e corrupção. Mais uma vez na pós-modernidade, encontramo-nos na situação de Francisco, propondo contra a miséria do poder a alegria do ser. Esta é a revolução que nenhum poder controlará – porque o biopoder e o comunismo, a cooperação e a revolução continuam juntos, em amor, simplicidade e também inocência. Esta é a irreprimível leveza e alegria de se ser comunista.”










(Trechos finais do livro Império, de Antonio Negri e Michael Hardt)

sexta-feira, abril 10, 2009

Cervejas, cigarros e a velha raça humana

Duas ou três horas? Não sei há quanto estamos aqui nessa mesa engordurada, bebendo essas cervejas geladas nessa noite abafada... Quando cheguei, ainda tava claro; não tenho relógio e não vou tirar o celular do bolso pra ver as horas, aliás, qual o motivo de estar pensando no tempo? Ela chegou, perguntou se não tinha cadeira e um amigo levantou e pegou uma numa mesa próxima, mas quando ele foi ao banheiro ela tomou a cadeira na qual ele estava e se sentou ao meu lado. Reclamava da faculdade, dos professores, dos idiotas dos colegas, da mãe que não a deixava em paz, do namorado que não queria fazer ménage, de que já estava ficando sem cigarros e volta e meia, entre uma reclamação e outra, colocava a mão esquerda na minha coxa direita e falava alguma besteira e sorria. Tinha uma bunda grande e bonita, um rosto mais ou menos e uma barriguinha a mais do que devia ter... Reclamava, reclamava, colocava a mão e sorria.... Ah, também pedia cigarros, eu não fumo cigarro, pedia pros outros, pra qualquer um, pra todos. Ela parecia nunca ter cigarros, mas sempre querer fumar. Foi ao banheiro, que merda ser mulher e ter que ir ao banheiro de um pé sujo como esse, imundo, fedido, com a porta sem tranca... Quando voltou, ficou em pé atrás de mim com as mãos nos meus ombros fazendo uma massagem chata e repetitiva. Chega um sujeitinho meio gordo, de cabelo raspado, que vive fazendo barulho por causa de políticas estudantis: “vote na chapa dois” ou “vote na chapa um”, sei lá. Senta-se no lugar vago, ao meu lado. Ela pára com a massagem nos meus ombros:

- Porra, esse é meu lugar, Tavinho. Pegue outra cadeira pra você. – ele sorri, sem graça, se desculpando, levanta, pega outra cadeira e a coloca grudada na dela. Fica, então, falando das eleições do C.A. do curso de comunicação, dos artigos que escreve sei lá pra onde... Figurinha bizarra, a cada afirmação olha pra garota e tenta descobrir se ela o aprova. Ele quer que sua chapa seja eleita, provavelmente no futuro será vereador, deputado ou tesoureiro de algum partido tão bizarro e mesquinho quanto ele. Me conhece, pelo jeito, pois tenta puxar assunto falando sobre os rumos da esquerda e coisa e tal. Sorrio sem vontade, ao menos acho que sorrio, mas não respondo. Então, desiste de falar comigo e passa a falar alto, pra todos na mesa, sempre sorrindo e buscando a aprovação da garota. Só que ela ta com a mão na minha perna e submersa em pensamentos chatos e ainda murmurando coisas sobre a mãe ou o namorado. Não ouço nenhum dos dois, bebo lentamente minha cerveja, jogo um pouco de sal na mão e lambo... Vou mijar e, quando volto, um amigo está gritando, ameaçando o futuro vereador ou tesoureiro. Briga de bêbado é sempre chata. Ainda quero beber mais, então nada de briga. Entro no meio, peço pro meu amigo se sentar e empurro o outro fulano fazendo-o se sentar. Ele olha pra mim e grita:
- Hei, camarada, não precisava empurrar!
- É, não precisava. – bebo minha cerveja e a garota novamente enche meu copo e dá um gole antes de devolvê-lo. Meu amigo ainda quer briga. Eu não. Quero beber. Então falo:
- Cara, deixa quieto, vamos beber.
- Mas esse Tavinho é muito chato, chega aqui na mesa e quer monopolizar a conversa...
- Deixa ele, vamos beber – olho pro tal Tavinho e proponho:
- Você não vai mais monopolizar as conversas, não é? Você quer só beber numa boa...

- Claro, quero beber e conversar, teu amiguinho que é muito esquentado. - meu “amiguinho esquentado” quase se levanta novamente, mas meu irmão ta lá ao lado e pede pra ele ficar tranqüilo. O garçom velho e cansado traz batatas fritas e lingüiça calabresa com cebolas, todos comem, alguns se levantam, fingem fazer contas e jogam alguma quantidade de dinheiro na mesa, se despedem, beijos, apertos de mãos, tapinhas nas costas. Ficamos no bar, eu, meu irmão, dois amigos, o vereador/tesoureiro e ela. Kafka, jazigos perpétuos, a loirinha de piercing que faz publicidade e cheira muito pó, a morena que já chupou a todos, as FARC, povoam nossas conversas. O bar vai fechar, pagamos a conta, vamos pro boteco menor que ainda está aberto do outro lado da rua. Mais cerveja. Ela pede cigarro, ninguém mais tem, Tavinho se levanta pra ir comprar na padaria ao lado, volta sorrindo e enquanto a garota fuma, fica debruçado sobre ela, falando palavras moles. Ela me olha pedindo socorro. Sorrio, na verdade não devo ter sorrido, acho que to muito desanimado pra sorrir, e continuo conversando com meu irmão. Ela se vira pra mim e dá as costas ao tesoureiro, pega meu copo e bebe, depois coloca mais cerveja. Falo uma ou duas coisas, besteiras sem importância, pros meus amigos e pro meu irmão e de repente o fulaninho se levanta gritando:
- Prepotente! Você é um prepotente do caralho. – ai, que saco, lá vai ele arrumar briga com meu amigo, dessa vez vou deixar rolar, não tenho mais energia pra separar. Mas aí vejo que ta todo mundo olhando pra mim... Então eu sou o tal “prepotente do caralho”. É, deve ser isso:
- Que disse? – quando perguntei, ele parou um instante, olhou pra mim e depois pra garota e pros meus amigos e me apontou o dedo:

- Prepotente! Acha que é quem? – gritou, meio esganiçado e cuspindo involuntariamente... É estranho como essas coisas acontecem, não é? De um segundo pro outro nossas veias saltam, sentimos o rosto queimar e o suor escorrer e estamos prontos para saltar sobre alguém e lhe arrancar dentes, ou até fazer pior que isso. Quando percebi, o estava segurando pelo pescoço, torcendo para que tentasse me dar um soco, mas no mesmo instante meu irmão me puxou e os dois amigos se colocaram entre nós. Sentei e bebi meio copo de cerveja, enquanto isso meu irmão tentava convencer o infeliz a ir embora, mas ele devia achar que seria humilhação demais sair agora, mesmo estando assim tremendo como estava; o homem é bicho engraçado e por vezes o medo de ser humilhado é maior que o medo de um traumatismo craniano... Vinte minutos depois ele dizia para bebermos mais que seria por conta dele, que homens como nós não deveriam nunca agir assim, que estava arrependido e que isso era coisa da bebida... Bebemos por mais uma hora, uma hora e meia, não sei. Ele falava e sorria e falava e nem mais tremia, eu o olhava nos olhos, ele desviava o olhar, pedia mais uma cerveja, acendia mais um cigarro... Me levantei, puxei a garota pelo braço:
- Vamos lá pra casa. – quando me ouviu, ela sorriu e me abraçou, a afastei de leve e a segurei pela cintura e fomos andando, ela ao meu lado e eu com a mão em sua grande e bela bunda. Eu nem tava afim da garota, mas a fodi a noite inteira... Sei lá, vai ver sou mesmo um “prepotente”... O homem é um bicho engraçado...

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Cicatrizes urbanas, massa de gente e de luz




...desde garotinha vi que era assim, tudo meio névoa, meio fábula. Vestidinhos feitos em casa, babadinhos, bordados, mamãe fazia vestidinhos lindos que eram orgulho meu e das primas. Tinha um branquinho que quando eu usava era pomba voando pela rua de terra e era um tal de “vai sujar a roupa, menina, pára de correr!”; correr nada, voar, mas ninguém entendia, ninguém nunca entende névoa e fábula. “Vem aqui, você ta linda assim de branco”; e era mão na cintura, na perna, no bumbum, é, eu dizia “bumbum”. E ele encostava as coisas em mim e suava aquele cheiro insuportável de cachaça e fumo de corda e eu não sentia nada, nem medo, nem tristeza, nem nada... acho que não, acho que não sentia e queria era voar, ser pomba e ser fada. E tinha a missa, o padre e o incenso que trazia aquele mundo de fumaça e de anjos, mas ninguém entende de anjos-no-incenso, e tinham aquelas velhas de preto e de véu rezando com um ódio que só as velhas de preto conhecem, e a missa era tão mais delas que dos anjos... E a escola... na escola tinha a professora tão linda e tão boa, mas tinha muito mais, tinha o suficiente pr’eu voar pra longe. E chegando aqui, eram só luzes e carros, e tudo tão grande e eu tão pequena; São Paulo era massa de luz, de gente e de fumaça-sem-anjos. A noite era sempre mais bonita e brilhante, mas amanhecia e tudo era cinza e pichado. Mas desde sempre acho que as pichações têm lá sua dignidade, são respostas mais que justas de moleques esmagados, são não só o grito de “existo”, mas também ataques a quem os esmaga, são cicatrizes que deixam na cidade, pra mostrar que a luz dela é falsa e que muita gente chora em cada beco. Elas são o que de mais digno existe em São Paulo... mas não são névoa nem fábula, são gritos de dor e de guerra. To tão cansada, não havia espaço pra voar no interior de minas, na minhinfância perdida, e nem há vôo aqui na cidade grande, aqui ninguém voa e pomba é bicho odiado, é rato que voa e que caga em cabeças e calçadas, como se todos não fossem ratos cagões em cidades como São Paulo. E é sempre assim: “mina, senta aqui comigo que te pago uma breja”, “mina, você é tão linda, quer um doce, quer um baseado?”, “quer ir ao meu apê?”, e é suor com cheiro de perfume e é olhar de pegue-um-táxi-e-não-me-ligue e é gente de bem, com faculdade, com dinheiro que bate, que cospe e que fode. E ninguém sabe voar, tão todos tão presos e ocupados em prender que ninguém tem olhos pros olhos do outro. E to tão cansada e daqui de cima, tudo até que vira fábula, os carros tão pequenos lá embaixo formam esses rios de luzes vermelhas e amarelas e cada uma dessas janelinhas aqui nos prédios parece estrela... e se agora da minha janela eu voasse, ninguém iria notar, mas entre estrelas e rios de luzes tudo seria névoa e fábula...

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Hélio Gracie

Morreu Hélio Gracie, o criador do Jiu Jitsu brasileiro, comprovadamente a arte marcial mais eficiente que existe. Ele foi um homem que das suas fraquezas gerou uma força até então inimaginável. Se fosse fisicamente forte, não teria tido motivos para desenvolver todas as técnicas de alavancas que permitem que o menor e mais fraco subjugue o adversário. E o Jiu Jitsu Gracie é mais do que um complexo sistema de combate, é uma ferramenta de formação de caráter que mudou pra melhor a vida de muitas pessoas, inclusive a minha. Devo muito ao Mestre Hélio, que indiretamente, por meio da arte que criou, me ajudou a ser mais forte, calmo, disciplinado, persistente, resistente e corajoso. Minhas lutas pessoais, sociais, revolucionárias são também reflexo do que aprendi com as experiências que tive e tenho no tatame. Me despeço aqui do nosso Grande Mestre, e deixo meu profundo sentimento de gratidão.



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Abaixo, posto uma entrevista do mestre Rickson Gracie, para o site da revista Tatame, na qual fala sobre a morte de seu pai, Hélio, e a expectativa em relação ao desempenho de seu filho, Kron, (abraçado a ele na foto abaixo) no Campeonato Europeu de Jiu Jitsu que está acontecendo nesse final de semana, em Portugal:



Nos bastidores do segundo dia do Europeu de Jiu-Jitsu, que acontece em Lisboa, Portugal, Rickson Gracie passou todo o tempo cochichando ao pé do ouvido de seu filho, Kron, que se prepara para entrar em ação hoje na disputa do peso. Em conversa com a TATAME, Rickson falou sobre a expectativa para o desempenho do filho, que não luta desde o Mundial 2008, nos Estados Unidos, e comentou a morte de seu pai, o Mestre Hélio Gracie, na última semana. Confira abaixo o bate-papo com Rickson em Portugal.

Como você reagiu à notícia da morte do seu pai?

Em primeiro choque, por estar aqui de longe fazendo trabalho, vem aquele sentimento de perda da parte física, da companhia, do sorriso, do abraço... A gente chora um pouquinho, mas, passando essa onda imediata de surpresa e de uma dor bem terrena, vendo em uma perspectiva mais geral, a gente vê que o nosso grande Mestre fez a volta toda do círculo. Ele não só viveu 95 anos com saúde, como até mais ou menos uns cinco dias atrás, ele nunca tinha entrado em um hospital. Ele deixou um legado, um tesouro, completou todos os sonhos que ele tinha na cabeça, tanto pra ele quanto ver os filhos dele envolvidos. Ou seja, ele teve uma vida que só se pode agradecer. Quisera eu um dia chegar lá. Então não é uma coisa chocante, a gente tem que esperar que isso aconteça um dia, ninguém vive para sempre. Então, dentro dessa naturalidade um pouco mais espiritual, eu acho que agora ele se transformou realmente, se liberou daquele corpinho velho e cansado que ele estava, e agora ele vai estar aí vendo o neto lutar, vai estar impulsionando e desenvolvendo, dentro de uma forma espiritual, essa continuidade desse compromisso que nós, que amamos o Jiu-Jitsu, temos pra levar à frente. Então é uma coisa que é só amor, é só felicidade, agradecimento. É continuar nossa vida e mantê-lo vivo através do nosso Jiu-Jitsu.

Como você se sentiu em não poder estar presente ao seu funeral?

Me senti feliz de pelo menos estar aqui trazendo o neto dele para o que ele sempre amou e sempre fez. Se eu estivesse em uma festa nas Bahamas, se estivesse passeando de férias, eu ia estar realmente entalado, com um palito entalado na garganta. Mas, diferente disso, eu sei que ele saiu de lá e veio pra cá. Então é uma coisa que eu estou sabendo que ele está feliz, está dançando no céu com a família e os amigos que já se foram e está apreciando toda essa festa aqui, como ele gosta de ser lembrado, em cima de uma festa.

Como o Kron reagiu à morte do Hélio? Como espera que ele se saia no Europeu?

Evidentemente ele é um garoto, não tem a mesma evolução espiritual para entender uma partida, ele realmente sentiu muito, mas ele está muito bem treinado, muito bem focalizado e está sabendo que para representar, para dignificar e para tentar dar essa medalha pro avô, ele vai ter que recrutar todo o foco, toda calma, toda paz, toda serenidade e técnica que ele tem. Eu acredito que ele vai colocar tudo isso junto e vai ser um bom adversário pra qualquer um que esteja na frente dele, mas não se pode antecipar nada, pois a luta a gente resolve depois que bate o gongo. Estou aí por ele, vamos ver. Ele está bem preparado. Só estou ajustando cada vez mais preciso do que ele sabe fazer, mas isso desde garotinho.

Quais são os seus planos para 2009?

Os primeiros seis meses farei seminário pelo mundo, EUA, Japão etc. E no segundo semestre eu continuo fazendo em todo o Brasil, em São Paulo, Minas Gerais, Florianópolis etc. Vou continuar nessa sequência, porque vejo que o meu serviço não se enquadra mais dentro de uma bandeira. Vejo que eu, como uma referência do Jiu-Jitsu, com tantos admiradores e tantas pessoas que querem aprender o meu Jiu-Jitsu, estou compromissado a elevar o nível, compromissado a trazer uma visão completa do Jiu-Jitsu, que também não é só competição. Tem uma parte psicológica, que eu acho que é a formação do homem através do Jiu-Jitsu. E é baseado nesse serviço que eu vou me empenhar o resto da minha vida. Tenho uma luz dentro de mim que realmente começou a brilhar a partir do momento que eu me aposentei das lutas e estou me dedicando a servir através do Jiu-Jitsu. Isso é uma coisa que só está me dando alegria.

Qual a mensagem que você manda para os fãs após a morte de seu pai?

Para os fãs que competem ou que lutam e praticam o esporte, que continuem praticando, pois o professor vai estar vivo dentro do quimono de vocês. Para os fãs e amigos que não praticam, podem ter a certeza que o grande Mestre viveu uma vida feliz e completa, e que esse amor é exatamente a razão de toda a nossa existência. Acho que ele simplesmente saiu do corpo, mas Helio Gracie sempre foi e sempre vai ser o criador do Brazilian Jiu-Jitsu, o cara que realmente fez a diferença e que é a expressão máxima do que a gente faz hoje.


segunda-feira, outubro 06, 2008

Insônia e suor



Gosto dessas noites quentes. Gosto dessa minha insônia bêbada e exausta, desse suor que nunca seca completamente – o corpo grudando no lençol. Camila, agora tão calma, com a luz do abajur iluminando sua bunda e suas coxas, dorme muda e linda, como era de se esperar. Há bem pouco, gritava, mordia e chupava como se isso fosse tudo o que existia, todo o possível, tudo o que se poderia tirar de uma vida.


Tupã morreu depois de se arrastar por meses, sua coluna foi virando quase que um ponto de interrogação; Rani chorou uma noite toda, vomitou sangue, cagou uma água negra e, de olhos arregalados, deixou de respirar; Wall sumiu, saiu pra nunca mais voltar... e é tão estranho pensar que nunca vou saber o que aconteceu.


Se eu fosse tomar banho, pra tirar esse suor e esse cheiro de buceta e de saliva do meu corpo, eu relaxaria, a insônia acabaria e eu só iria acordar quando a vontade de mijar vencesse o sono. Mas aí, eu desmancharia isso tudo, essa noite quente e pesada, essa bunda e essas coxas morenas iluminadas pela luz fraca e amarelada do abajur que faz tudo parecer irreal.


Tio Arthur, quando vinha pra almoçar nos finais de semana, pedia pra eu prender o Wall no quintal. Cara escroto, na minha casa, comendo a comida que a minha mãe preparava, e ainda mandava o coitado do Wall pra fora. Naquela tarde, bebeu tanto que eu sabia que uma hora ele iria dizer alguma provocação, como sempre, e eu poderia finalmente fazer o que queria. Mas ele estava feliz, tinha ganhado uns reais no jogo do bicho e só falava gentilezas pra minha mãe e contava piadas pro meu pai. Eu assistia a tudo e torcia para que a bebida o levasse a falar qualquer besteira, por pequena que fosse. A tarde acabou e ele pegou as chaves do carro e a carteira que tinha deixado em cima da cristaleira – nenhuma provocação, nenhuma piada de mal gosto... eu o acompanhei até a porta e cuspi no meio daquela testa brilhante: “Você ficou maluco, moleque?”, dei três socos, os dois primeiros na cara, o terceiro no ar porque ele já estava caído. Seu nariz sangrava muito, cada vez mais, e ele gemia e minha mãe gritava, ele gemia, ela gritava... não sei bem o que aconteceu depois, lembro só de tocar o interfone da Patrícia e de que trepei muito naquela noite e acabei dormindo no apartamento dela por cinco dias.


Já está amanhecendo. A luz que entra pela janela estraga tudo e eu nem me sinto mais tão bêbado, o vento leve também vindo da janela invade o quarto e batendo no meu corpo suado me desperta. Todos esses carros, que a essa hora já estão indo e vindo, buzinando, acelerando e freando, todas essas pessoas com pressa, sempre atrasadas, todo esse barulho e movimento lá fora, nas ruas, tudo isso me deixa cansado.


Wall ficava amarrado pelo pescoço, no quintal de casa. Tio Arthur se sentava à mesa, contava piadas e bebia cerveja. Os dois saíram de casa e não voltaram. Um dia, o Wall sumiu e ninguém da vizinhança soube dizer nada que ajudasse a encontrá-lo. Tio Arthur, depois daquela tarde, também não voltou, mas não sumiu, continuou jogando no bicho, bebendo cerveja, mas passou a almoçar na casa de um amigo da sinuca. Morreu com um tiro na cara, um ano depois. Parece que reagiu a um assalto.


Ela murmura ou geme por causa do frio, sua bunda morena está arrepiada, tenta se cobrir, mas puxo o lençol e não deixo. Ela se encolhe toda, mas não acorda... Saber que lá fora existem tantos carros indo e vindo, tantas pessoas apressadas buzinando, tanto barulho e movimento me deixa realmente muito cansado.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O Século de Sartre (parte final): A verdadeira face de Bernard-Henri Lévy

A grande questão para Lévy neste livro é, como já disse, seu ataque ao pensamento revolucionário. Ele “releva” os “deslizes” de Sartre (seu apoio ao comunismo, sua defesa da revolução) e os atribui uma ingenuidade comum naquele momento histórico, a uma decadência intelectual e a uma confusão mental que imagina ou finge imaginar no filósofo. Mas ele só “releva” isso, justamente pra apontar que são deslizes, que homens responsáveis não apóiam uma revolução, ou melhor: nem acreditam em revoluções:

“As revoluções mais bárbaras não são as revoluções fracassadas, mas as que chegaram a seu termo; quanto mais vitoriosa a revolução, mais funesta e criminosa ela é... Sartre, enfim, por definição, não sabe nada disso.” (Lévy, op. cit., p. 412).

O que seria da liberdade de pensamento que Lévy tanto diz proteger se, por exemplo, o ocidente não houvesse passado pela Revolução Francesa? Ou, pensemos assim: se com todo o enfrentamento que recebeu, o capitalismo já é como é, uma máquina de moer gente, imaginemos como seria sem seus questionadores, sem os revolucionários que deram e dão suas vidas para combatê-lo? Mas, pelo visto, Lévy, enfim, por definição, não sabe nada disso. Que tipo de pensador afirma existir uma “nocividade intrínseca da própria idéia de revolução” (ibid)? Respostas possíveis: um pensador que se faz porta-voz da mentalidade burguesa; um ingênuo acomodado que acredita na filantropia, na bondade da classe dominante; um autista político que crê que os opressores, sem violência, sem enfrentamento, entregarão seu poder e compartilharão suas riquezas; um reacionário que considera que na manutenção do sistema está a verdadeira felicidade.

Uma coisa é se portar como Camus e se negar a aceitar os tremendos sacrifícios impostos por uma vanguarda revolucionária em nome de um futuro possível; ou como Debord, que tão grandemente, alucinadamente e artisticamente defende a Revolução em seu Sociedade do Espetáculo, mas ao mesmo tempo acusa a ditadura burocrática soviética e a considera tão vil quanto o capitalismo; ou como Deleuze, que sabe que só da revolta com o presente se pode lutar pela construção de um futuro digno, mas que combate todos os tipos de opressão e sabe que não se pode combater o fascismo aprisionando o pensamento dos homens; ou como Foucault, para quem a “única garantia de liberdade é a própria prática da liberdade” (1984: 245); ou como Negri, que acredita no poder da multidão e não no do Estado repressor. Outra coisa é se portar tão pequenamente, tão burguesamente, quanto o autor d’O Século de Sartre. Ser a favor da Revolução, não é ser a favor do stalinismo. Ser a favor de um socialismo, um sistema capaz de colocar como seu centro a própria sociedade, a dignidade humana, que luta para que todos tenham as mesmas condições de possibilidade de se desenvolver, ser a favor desse tipo de idéia, definitivamente não é o mesmo que ser a favor do gulag.

Mas o autor da biografia aqui analisada não é mesmo simpático aos homens que decidem lutar. Ele assumidamente sente é saudades do “dandismo amável” (op. cit., p. 501) do jovem Sartre; pobre Lévy. Como se o primeiro Sartre tivesse se deixado contaminar pelo vírus do marxismo e a partir de então, doente, só cometesse equívocos e não como se o amadurecimento do autor o levasse a pensar no outro, a romper com sua antiga visão de mundo e se engajar na luta pelos sem voz, como se seu período de confinamento no campo nazista de prisioneiros não o tivesse feito enxergar o sofrimento alheio - e uma vez o tendo visto, nunca mais conseguiu ignorá-lo. Toda a evolução sartriana em direção a um pensamento para o outro, para a justiça, em prol e ao lado dos esfarrapados do mundo é reduzida, por Bernard-Henri, a um deslize intelectual que teria levado o velho filósofo a se igualar à ingenuidade de pensamento do Autodidata (personagem de A Náusea). Quanto mais Sartre evoluiu, quanto mais leu, viu, sentiu, viveu, mais se engajou, mais se tornou revolucionário. Errou algumas vezes sim, como todos estamos fadados a errar, mas errou com a coragem de quem sempre tornou seu pensamento público, errou para o mundo, sem medo de julgamentos. Sabia que assumir publicamente todas as suas idéias trazia uma enorme e pesada responsabilidade e viveu intensamente cada escolha, cada palavra, cada atitude. Viveu pela liberdade, não apenas a sua, mas a dos outros. Em determinados momentos, se alinhou com regimes que em nome da liberdade, paradoxalmente, tiraram a liberdade dos homens, mas sempre se manteve aberto para rever suas posturas. Sim, por vezes o filósofo engajado errou. Mas acertou também, e muito, como o próprio Lévy admite. Mas a questão é que acertou muito além do que Lévy admite.

Pra terminar, pensando na postura de Bernard-Henri Lévy e tentando enxergar sua verdadeira face escondida atrás da máscara de intelectual e bom escritor, fiquemos com as palavras de um homem que fez de sua vida uma luta pela liberdade, um brasileiro que uniu teoria e práxis e foi expulso de sua terra por isso, Paulo Freire:

“Os que inauguraram o terror não são os débeis, que a ele são submetidos, mas os violentos que, com seu poder, criam situação concreta em que se geram os demitidos da vida, os esfarrapados do mundo” (...) “Para os opressores, porém, na hipocrisia de sua ‘generosidade’, são sempre os oprimidos, que eles jamais obviamente chamam de oprimidos, mas, conforme se situem, interna ou externamente, de ‘essa gente’ ou de ‘essa massa cega e invejosa’, ou de ‘selvagens’, ou de ‘nativos’, ou de ‘subversivos’, são sempre os oprimidos os que desamam. São sempre eles os ‘violentos’, os ‘bárbaros’, os ‘malvados’, os ‘ferozes’, quando reagem à violência dos opressores.” (Freire, 2005: 47-8)


DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
FOUCAULT, Michel. Space, Knowledge, and Power. 1984.
LÉVY, Bernard-Henri. O Século de Sartre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

terça-feira, agosto 26, 2008

O Século de Sartre (parte II): Má-fé e revolução


O autor usa boa parte das páginas de seu livro para construir a imagem de analista qualificado e simpatizante do biografado (o livro é uma biografia filosófica, ou literária, já que se atém mais às obras e posturas políticas do biografado do que à sua vida pessoal), para depois atacar seu verdadeiro alvo, seu verdadeiro inimigo: o pensamento revolucionário – vejam bem, afirmo que Lévy não ataca apenas os abusos, assassinatos e ditaduras perpetrados em nome da revolução, ataca sim a própria idéia de pensamento revolucionário, de devir revolucionário.

Aos poucos, o caráter reacionário do autor ganha corpo e percebemos o quanto o assusta e enoja o pensamento para o outro, a ação pelo outro. Qualquer práxis e teoria que fujam do individualismo quase niilista por ele atribuído ao primeiro Sartre é território inimigo. Suas investidas não se dão apenas contra o segundo Sartre, de Crítica da Razão Dialética, o autor marxista e engajado, mas contra o pensar revolucionário em si e contra os pensadores da revolução. No ataque a Deleuze, por exemplo, fica claro que Bernard-Henri Lévy entrou em uma guerra na qual está disposto a usar qualquer arma que julgue eficaz, até mesmo a distorção deliberada: “Pode-se gostar de uma filosofia capaz de nos dizer que os avatares de um carrapato à espreita podem ter mais sentido e importância do que o sofrimento de um kosovar ou de um checheno?” (Lévy, op. cit., p. 228).

Será que o autor é tão burro assim, pra interpretar o pensamento deleuziano dessa forma brutalmente rasa e distorcida ou é um ato de má-fé? Pela qualidade de outras passagens e análises de seu livro, duvido de sua burrice. Como pôde dizer tais palavras a respeito de um filósofo que sempre defendeu a liberdade, a multiplicidade, o respeito à alteridade, um homem que combateu todos os tipos de fascismos, que amava a vida e acreditava no ato de tocar o real, incentivando a práxis libertária que cria jurisprudências ao agir sobre a realidade contra as injustiças. Como pôde fazer um julgamento tão leviano a respeito de alguém que lutava tanto pela liberdade humana, que sabia que o primeiro passo para conquistá-la está na decisão de travarmos uma guerra de guerrilhas dentro de nós mesmos, pois como possuímos subjetividades polifônicas, plurais, estamos o tempo todo sendo invadidos por forças externas: “O inconsciente é uma substância a ser fabricada, a fazer circular, um espaço social e político a ser conquistado” (Deleuze e Parnet, 1998: 94). Deleuze acreditava nas pequenas ações, acreditava na capacidade do homem de lutar pelo mundo:

“Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos.” (1992: 218)

O combate de Deleuze pela liberdade é tão vital, tão radical, que defende o desapego a qualquer forma de poder. Ele era um revolucionário, um verdadeiro revolucionário que sabia que “o sucesso de uma revolução só reside nela mesma, precisamente nas vibrações, nos enlaces, nas aberturas que deu aos homens no momento em que se fazia” (Deleuze e Guattari, 1992: 229). Deleuze era contra qualquer Estado totalitário, contra qualquer possibilidade de despotismo e sabia que o pensamento revolucionário é renovado a cada dia, ao se questionar o presente, e nasce do descontentamento, do inconformismo com qualquer tipo de injustiça, da criatividade e depende da liberdade de ação e pensamento. Vemos, portanto, que o pensamento de Deleuze nada tem a ver com a caricatura que o autor d’O Século de Sartre fez. Assim sendo, a seguir, tentaremos descobrir qual é o pensamento de Bernard-Henri Lévy.

(continua...)



DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. O que é a filosofia?. São Paulo: Editora 34, 1992.
DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Editora Escuta, 1998.
LÉVY, Bernard-Henri. O Século de Sartre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

sábado, agosto 23, 2008

O Século de Sartre – parte I

Com algum atraso, tive acesso a esse livro. Desde que a edição brasileira foi lançada, em 2001, eu estava com vontade de ler, mas nunca o suficiente pra gastar mais de 60 reais em um livro do Bernard-Henri Lévy. Mas, então, mês passado, eu achei um exemplar com aspecto de novo, sem uso mesmo, por 20 reais em um sebo no centro de São Paulo.

O livro é melhor do eu pensava, primeiro, porque Lévy escreve bem, o texto é fluido e agradável e as mais de 550 páginas passam muito fácil e rapidamente, segundo porque, como já sabia, a vida de Sartre é mesmo muito interessante e admirável, concorde-se ou não com suas posturas e palavras. Porém, é também um livro perigoso justamente porque Lévy é um bom escritor e sabe seduzir o leitor desinformado e levá-lo a aceitar com naturalidade suas posições e opiniões apresentadas como verdades simples. Por isso, considero que é uma boa obra somente pra quem já possui razoável leitura prévia sobre os assuntos tratados, principalmente a respeito de filosofia política.

Toda a primeira metade do livro se desenrola muito bem e até me surpreendi com um Bernard-Henri Lévy que se mostra grande admirador do que ele chama de “primeiro Sartre”, o autor de A náusea e d’O Ser e o Nada, um Sartre baseado, segundo o Lévy, em Stendhal e Espinosa, com um leve tempero de Nietzsche. O autor defende Sartre mesmo nas questões mais polêmicas de sua vida pessoal, como no caso de seu rompimento com Camus após o lançamento d’O Homem Revoltado. Não que ele ache que Sartre estivesse certo ao defender a esquerda enquanto Camus apresentava a constatação de que não se pode querer “libertar todos os homens escravizando todos, provisoriamente” (Camus, 1999, p.283), a questão é que Bernard-Henri Lévy age de maneira que eu não esperava e contextualiza historicamente a posição de Sartre, levando os leitores a compreendê-la; porém, só mais pra frente é que fui entender as reais motivações e estratégias do autor da biografia.


(Continua...)



CAMUS, Albert. O homem revoltado. Rio de Janeiro: Record, 1999.

LÉVY, Bernard-Henri. O Século de Sartre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.






segunda-feira, julho 14, 2008

Texto publicado n'A Broca Literária

Meu conto "Cicatrizes urbanas, massa de gente e de luz" foi publicado na revista A Broca Literária, da The Drill Press.


Daqui a uns dias eu postarei o texto aqui no blog.

terça-feira, junho 24, 2008

Aos novos idiotas da objetividade

O louco Nelson, trajando seus vestidos de noiva e vislumbrando beijos no asfalto, teve tempo e paciência de nos precaver contra os idiotas da objetividade, contra o copydesk - o cretino burocrata escravo da gramática da língua e também da gramática das relações de poder nas redações.


O tupiniquim maltrapilho idólatra da estúpida cultura do jornalismo estadunidense bradava: “Nada de adjetivações! Seja imparcial, seja objetivo! O bom repórter deve ser invisível!”.

Nelson, em resposta, apenas ria da vida ser como ele é. Ria por perceber como pequenos idiotas acumulavam grandes poderes e levavam a sério a pornochanchada que constituía seus reinados.

Os novos idiotas da objetividade não ocupam mais o praticamente extinto cargo de copydesk nas redações de nossos jornais. O diretor de redação não precisa mais do burocrata gramatical, pois hoje os repórteres já vêm domesticados de casa: subjetividades criadas, desde o nascimento, por nossas grandes figuras midiáticas, filhos da Globo e da Veja, felizes ruminantes de idéias pré-fabricadas e frases prontas, formados por faculdades de pedagogia tecnicista que ensinam a fazer um lead, mas os proíbem de pensar.

Hoje, quase todo cidadão tem um pouco de copydesk e teme e odeia os loucos parciais, passionais, tendenciosos que ousam dizer que o rei está nu e de pau duro e pronto pra meter na bunda de quem se curvar. Nosso cidadão-copydesk prefere seu existir anódino e falar de flores; mas, vejam bem, falar imparcialmente das flores, pra que ninguém se ofenda. As podres bases de suas vidas metrificadas, gramaticalmente corretas, seguras e cinzas, são abaladas a qualquer ruído autônomo, parcial e que assuma suas posturas e posições publicamente.

Os idiotas da objetividade contemporâneos, em uníssono, então, gritam: “Você é tendencioso até não mais poder, te odiamos!”. E como os idiotas da objetividade são o que são, meros pobres coitados de calças arriadas, se vêem ignorados, batem o pé, fazem bico, se descabelam e por fim suspiram sem forças: “Maldito engajado, queremos que nos deixe em paz com a objetividade de nossas vidas amorfas! Queremos a segurança de uma velhice tranqüila decorada com versos sobre amores, com belas rimas ricas e vazias. Por favor, nos deixe...”. Como se suas pobres rimas ricas sobre o nada de suas vidas supérfluas não fosse o que há de mais tendencioso, como se suas frases alienadas não servissem ao rei nu e excitado, como se a escrita e as idéias pudessem obedecer às leis dos cientistas que mandam que toda experiência, se repetida sob as mesmas condições materiais, deva apresentar os mesmos resultados em qualquer laboratório.

Nossas mentes deveriam ir muito além de nossos confortáveis e seguros quartos/laboratórios e nossas vidas deveriam servir a muito mais do que à luxúria dos reis. Pobres idiotas da objetividade são os mais tendenciosos de todos os seres, a diferença é que seguem felizes uma tendência que não nasce em seus peitos, mas no mercado.

Os idiotas são objetivos e livres: livres do fardo de pensarem por si próprios.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Um homem bem-sucedido


“Aquelas poucas notas serviriam pra exorcizar toda humilhação. Com as mãos irritantemente tremendo, tirou do bolso o pequeno maço e o estendeu para que ela o tomasse.”

“- Po... po... pode conferir, tá... tá tudo aí. – Que raiva que ele sentia. Tinha ensaiado tanto essa curta frase e agora gaguejava desse jeito!”

“Uma, duas, três... estava realmente tudo ali. O valor combinado. Sentiu um certo orgulho depois que ela conferiu o dinheiro e o guardou na bolsa. Estava agora um pouco mais confiante. Ela precisava de seu dinheiro. Pouco mais de um minuto após ele tirar as calças, tudo estava acabado. Ela se levantou, vestiu a calcinha e, sem que uma palavra saísse de sua boca ou expressão dominasse sua face, saiu do quarto.”

“Um misto de satisfação e medo o tomou. Vestiu as calças e apressadamente também saiu do quarto e desceu as escadas em direção à rua. Sentia-se forte, poderoso. Aquela mulher linda, aparentemente intocável para um garoto de treze anos, havia trepado com ele... bastou um punhado de dinheiro. Aquelas garotinhas que o desprezavam não chegavam aos pés dela. E daí que seus colegas tinham namoradas e ele não? Nenhuma tinha o corpo tão belo quanto o da vadia que acabara de foder.”

“Ali, naquele quarto, entendeu o que era preciso para nunca mais se sentir ridículo - teria que ganhar bastante dinheiro. Quanto mais, melhor. E toda sua vida foi dedicada a isso. Estudou para o vestibular pensado na grana que ganharia; acordou cedo para ir ao escritório, dia após dia, calculando quanto receberia pelas férias vendidas; fez e rompeu amizades de acordo com o lucro que imaginasse obter ou perder com elas; casar-se-ia por dinheiro se tivesse qualquer atrativo além de seu próprio dinheiro, mas não conseguindo atrair mulher alguma com posses iguais ou superiores às suas, casou-se por covardia mesmo, medo de envelhecer sozinho.”

“Quando chegou aos quarenta, percebeu que estava bebendo demais, que era horrível acordar para ir trabalhar, que sua esposa era uma estranha e seu filho um pequeno idiota... que um segundo após gozar na cara de uma nova puta, tudo perdia o sentido e chegava a sentir falta de ar, como se a vida pudesse ser perdida assim, por descuido, por não ter respirado da forma certa. Tinha medo que roubassem seu carro, via em cada moleque ‘malabarista de sinal’ ou vendedor de balas um potencial assassino, começou a beber pra poder ir trabalhar. Foi ao psiquiatra e pediu:”

“- Um pouco de paz, por favor! Eu pago!”

“Pequenos comprimidos que pelo peso e custo valiam, talvez, mais que ouro. Engolia-os conforme o psiquiatra indicara e as coisas melhoraram: sorria sem entender o porquê de fazê-lo, tremia menos e não tinha mais tanto nojo da esposa nem ódio do filho.”

“O que fazer de sua vida aos 45 anos? Comprou uma Harley e algumas jaquetas de couro, pagou putas mais caras, chegou a tomar coragem pra assediar algumas mulheres mais novas sem pagar diretamente para possuí-las (um jantar, uma viagem, uns presentinhos, apenas isso, nada em “cash”!), mas sempre que tentava se aproximar de alguma mulher mais interessante ou inteligente era tratado como o garotinho ridículo que julgava ter deixado de ser há tanto tempo. Isso dava uma angústia tremenda, mas nada que mais comprimidos, putas caras e álcool não dessem um jeito.”

“Com a idade, somou um pequeno comprimido azul aos que ingeria diariamente e, com isso, orgulhava-se de ao menos uma vez por semana comer uma garotinha com menos de 25 anos de idade. Um ano após se aposentar, teve um derrame. Nunca mais foi o mesmo. Mas o que o matou realmente foi aquela queda ao tropeçar na calçada em frente de casa, na manhã de segunda-feira.”

“Espero que perdoem o tom literário que usei, achei que tornaria tudo mais leve e fácil. Enfim, termino aqui essa breve biografia de um homem que podemos dizer que foi bem-sucedido. Ganhou todo o dinheiro que precisou para pagar pelo prazer de esquecer que nunca deixou de ser o garotinho assustado e covarde daquela fatídica tarde quando pagou por sua primeira mulher.” – Ao proferir essas últimas palavras, o homem magro, barbado e com olhos cheios de ódio e lágrimas, encarou o pequeno público: sua mãe, com o rosto repuxado pelo botox e um leve sorriso nos lábios; três casais de tios com expressões que variavam do susto ao desprezo; dois velhos colegas de chope de seu pai, que pareciam raivosos e surpresos; e um pequeno cachorro que se coçava indiferente ao enterro e ao discurso que um filho fazia em homenagem ao seu recém-falecido pai, antes que jogassem as primeiras pás de terra sobre o caro e luxuoso caixão.

segunda-feira, outubro 29, 2007

TROPA DA ELITE



Ingênuos que lêem Foucault

Heróis que empalam garotos

Toda ajuda é hipócrita

Tortura é a solução

Morte à alteridade

Aplausos histéricos à autoridade

Dos caminhos o mais curto,

o mais fácil.

Fácil?

Desde que não atrapalhe o trânsito

e que não manche de sangue

os nossos sapatos, calçadas e filhos.

E desde que não perturbe nossas refeições.

Não nos embrulhe os estômagos

com a desagradável visão desses

pretos,

pobres,

sujos e maus

garotos estraçalhados.


Quem somos nós?


Pretensa elite que goza o mundo

e que cheia de medo

assina cheques, contratos e penas.

Elite que, cheia de dentes, berra:

Paz!

Justiça!

Honra!

Basta!

Basta de tiros em nossos quintais,

de mendigos em nossas calçadas,

de malabaristas em nossas esquinas.

Paz

no asfalto

na escola

no shopping.

Paz, no morro, engatilhada

Cano ainda quente

sujo de saliva e medo.


Pobreza pacificada,

silenciada até o próximo carnaval.


Salve a liberdade burguesa,

a invisibilidade do outro,

os gritos que não descem o morro!

Um viva aos novos heróis da pátria

com seus uniformes negros!

Carrascos com carteiras assinadas.

Durmamos em paz

e deixemos pra eles a honrada missão

da manutenção desse nosso gozo infindável...

segunda-feira, outubro 01, 2007

Três passos para uma guerra


I - O NEONIILISMO
Tempos de pensamento único. Entretanto disfarçado, maquiado, siliconado, sedutor. Ele se apresenta: “Nunca houve tamanho fluxo livre de idéias e saberes.” Mas então qual o motivo de tantos concordarem? “Porque é o sensato a se fazer” - responde. Mas isso é somente o cinismo da mentalidade hegemônica, que aprendeu a tudo absorver e anular. Então, ele adverte: “Não há mais espaço para revolução. Os que conseguirem se manter menos contaminados pelas idéias dominantes se tornarão outsiders, figuras periféricas vistas como párias, loucos, incompetentes, improdutivos, inadequados, irrelevantes.”
Por isso, a sensação de impotência frente a um mundo que parece permanecer impassível aos protestos, às críticas, ao inconformismo. Assim, as revoltas vão sendo abortadas antes de tomarem forma. O desânimo atinge o peito e as potencialidades de idéias livres são sufocadas. As melhores mentes e os espíritos mais sensíveis de nosso tempo são empurrados para um neoniilismo, e este é um terreno instável e perigoso; berço da violência dirigida ao próximo e a si mesmo.

II – AS MÁSCARAS PARTIDAS
Só que até a sensação de impotência nada mais é do que produto dessa indústria que nos traga. A história mostra que, um a um, cada paradigma inquestionável foi violado e humilhado quando o tempo certo chegou. Nada do que criamos é eterno. Tudo é mutável e frágil, por trás das impressionantes máscaras. Fortes não eram os impérios teocráticos, as propriedades feudais, a razão eurocêntrica ou a “superioridade” ariana. Forte é o homem que criou cada uma dessas terríveis fantasias, pois só ele tem o poder de destruí-las.

III – O CAMPO DE BATALHA
Se a ditadura do mercado, se a indústria onívora, são criações humanas, então não somos nós que temos que nos ajoelhar. O discurso onipresente, que a todo custo busca nos aliciar ou esmagar, sempre apresentará a realidade como forte e estruturada demais pra ser combatida. Mas isso é mentira. A mentira que sustenta a dominação de tão poucos sobre tantos. Que ao nos calar nos torna cúmplices. Que turva a visão, nos fazendo apontar dedos acusatórios para as vítimas. Mentira que nos torna assassinos. Culposo ou doloso, não importa, é crime de morte. Temos mais poder em nossas mãos do que querem que acreditemos. Cada recusa tem seu valor, cada ato tem sua conseqüência. Pequenas rupturas podem provocar impensáveis deslocamentos. Um dia uma negra se recusou a ceder seu lugar em um ônibus. Um dia um jovem judeu alemão transformou filosofia em arma. Um dia decidimos dizer não; deixamos as mãos sujas de sangue, pois acordamos para o fato de que lavá-las, como sempre fazemos, é ato abominável e covarde.

quinta-feira, julho 05, 2007

Ingênuos, loucos e guilhotinados


Sólido, pois dado por Deus, é o poder do rei. Ingênuos e loucos os que não enxergam que isso é inquestionável!

- Olhem! Deus não interveio, a lâmina desceu e a cabeça de Luís XVI rolou. A corte chora e faz fila para subir os degraus que levam ao cadafalso.

Isto é o progresso! Está claro que a situação dessas mulheres e crianças trabalhando 17 horas por dia em nossas fábricas não é lá um de seus aspectos mais agradáveis, mas é preciso haver sacrifícios para que existam avanços. Que tipo de ser ignorante ousa duvidar das luzes da razão? Que pobre sonhador pensa ser possível ir contra as engrenagens?

- Que luz é aquela que ilumina nossa cidade nesta linda noite? A fábrica está queimando!

- Corre por aí o rumor de que reduzirão a carga de trabalho para oito horas diárias...

- Não seja estúpido, são apenas boatos espalhados por esses desordeiros.

Todos sabem que as mulheres devem obediência irrestrita aos maridos. Quem, com um mínimo de sobriedade, ousaria desafiar as tradições e os bons costumes?

-Verdade que queimaram sutiãs?

- É, é sim. Mas chega de conversa, senão a chefe vai reclamar.

As gigantescas corporações ditam as leis mundiais. A lógica de sobrevivência exige que ajam sem qualquer altruísmo. Elas pertencem à iniciativa privada, têm que trazer lucros aos acionistas e não bem-estar social. Não há o que se fazer contra isso. Tem que ser muito ingênuo e não entender de política para achar que pode mudar essa realidade tão sólida!

-É verdade. Esses ingênuos não aprendem nunca!

sexta-feira, junho 15, 2007

Santos e radicais, prantos e latidos

“Humanamente, só nos santos dá pra ver os deuses: só nos radicais, dá pra ver a ideia”
Quase duas da manhã, leio tal frase. É o tipo de coisa que, se não somos muito distraídos ou idiotas para a deixar passar despercebida, relemos e depois fazemos uma pausa para pensar. Foi isso que fiz, com o livro entreaberto, página marcada por um dedo.
O silêncio é relativo, mesmo a essa hora, apenas o possível nas madrugadas das grandes cidades – carros ao fundo, leve mantra mecânico produzido por pistões e explosões. Noite amena; nem calor, nem frio, nem sono. Livro na mão esquerda, página 23 marcada pelo dedo indicador, a frase de Leminski na cabeça. Então, o imponderável se apresenta: o choro feminino. Dor anônima que rasga a noite, interrompe o pensamento e desperta os cachorros, que, solidários, latem e uivam – 1,2,5,8 – incontáveis vozes de cães diferentes. Choro sentido e profundo, cria o silêncio entre um espasmo e outro.
Vou à janela, poucas luzes acesas, poucos carros passando. O que fez essa mulher romper a distância entre ela, os cachorros e os ouvidos vizinhos? O que a fez sair de sua anônima existência? Regia, em sua agonia, o canto canino que anunciava a todos que algo se rompeu. A ordem das coisas se alterou. E seja ela quem for, com seu grito irracional, naquele momento, dominou a noite. Contra aquilo, nem livros, nem idéias, nem santos, nem radicais, poderiam se bater. Ela, sua dor e a aflição dos cães eram, ao menos por aqueles segundos, a própria noite.

quinta-feira, maio 24, 2007

Liberdade

Você é livre

Para escolher

A cor das tuas cortinas

Dos teus tapetes

Dos teus cabelos

Da tua empregada

Você é livre

Para decidir se quer

Beber ou cheirar

Fumar ou injetar

Malhar ou engordar

Envelhecer ou se lipoaspirar

Comer ou dar

Corromper ou denunciar

Demitir ou humilhar

Socar ou abraçar

Você é livre

Para mudar

O canal da tua televisão

A marca do teu som

O tamanho do teu celular

Ou mesmo para determinar

Se quer versos livres ou rimar

Você é livre

Mas experimente

Distribuir e não vender

Pisar na grama e não no homem

Tentar entender

Perguntar o porquê

De comprar

De pagar

De vender

De calar

Vendo a polícia matar

O jornalista mentir

O advogado omitir

O juiz humilhar

A madame sorrir

Pelo acordo velado que a permite

Ser livre e lucrar

Você é livre?

segunda-feira, maio 07, 2007

Almas cansadas e códigos de barras


Quantas famílias sem terra custa a tonelada da soja? Quantas peles queimadas, mãos feridas e almas cansadas são necessárias para encher de álcool os tanques de alguns poucos carros? E qual a relação entre gotas de sangue e litros de gasolina nas bombas de nossos postos?

Nosso conforto custa caro.

Quantas infâncias chinesas são pisadas para que uma remessa de tênis importados chegue às nossas lojas? Quanta tristeza é preciso abrigar os olhares de garotas operárias vietnamitas para que as crianças do ocidente ganhem brindes plásticos quando comem um hambúrguer? Quantos olhos africanos precisam ser fechados pela Aids para que ganância da indústria farmacêutica seja saciada?

Quanta dor alheia vale nossa alienação?

Os preços de nossos produtos são muito mais altos do que indicam os códigos de barras. Não é preciso agir para se tornar assassino, basta o silêncio.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Schopenhauer: as palavras e a flecha como possibilidades de resistência


O livro “A arte de escrever” é composto por ensaios que tratam da escrita e foram retirados da obra original “Parerga und Paralipomena” (1851) do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ao todo, são cinco capítulos escritos com vigor e agressividade: Sobre a erudição e os eruditos, Pensar por si mesmo, Sobre a escrita e o estilo, Sobre a leitura e os livros e Sobre a linguagem e as palavras.

Com desprezo e raiva, o autor denuncia a decadência cultural da Alemanha e da Europa: acusa a crítica literária de colaborar com editoras e autores que só querem tirar dinheiro do público; ataca os filósofos que adotam propositalmente um estilo de escrita complexo ao exagero para que seus textos pareçam ter mais conteúdo do que realmente têm; torna público seu desprezo pelos eruditos que passam a vida a ler, sem serem, entretanto, capazes de formular um pensamento próprio; compara o especialista, o técnico, o cientista, com o pensador que por meio de seus estudos busca a verdade - e não o dinheiro ou o status social. Pelos temas, podemos perceber a atualidade destas páginas escritas na metade do século IXX.

Enquanto lia “A arte de escrever”, fiquei tentando imaginar o que Schopenhauer pensaria do mundo contemporâneo: dos livros de auto-ajuda; de nossas cretinas listas de best-sellers; da perda acelerada do gosto pela leitura, que cada vez mais é substituída pela televisão e outras mídias de massa, em nossa sociedade; da educação técnica e voltada ao mercado; do culto às celebridades midiáticas; da ditadura da indústria cultural. Entretanto, constatei que a verdadeira questão é se estamos construindo um mundo que em breve não mais será capaz de criar novos Schopenhauers, Espinosas, Deleuzes, Foucaults, Sartres ou Nietzsches. Futuramente, serão abortados os nascimentos de novos verdadeiros pensadores devido à total falta de condições de possibilidades para que tais existências sejam cultivadas?

A velocidade vampiriza nossas vidas, o culto ao consumo torna regra o descartável, a mentalidade da objetividade técnica e da eficácia tenta nos convencer de que pensar o pensamento é atividade risível. O que estamos nos tornando? Que caminho estranho é este que escolhemos? Como resistir ao próprio movimento social e histórico sem ser esmagado é o problema a ser enfrentado.

Talvez apenas reste escrever textos e lançá-los ao mar com a esperança de que algum sobrevivente do progresso um dia os tire da garrafa e que, então, dentre tudo o que fomos capazes de produzir, algo cause uma forte ressonância e salvemos uma vida, uma mente. Resta a esperança do contágio – como já disse em outro momento. Encerro este post com a imagem que há muito me marcou: a do pensador sendo um arqueiro, que por meio de seus textos atira idéias ao ar sem saber o peito de quem uma delas poderá um dia atravessar.

“A palavra dos homens é o material mais duradouro. Se um poeta deu corpo à sua sensação passageira com palavras mais apropriadas, aquela sensação vive através de séculos nessas palavras e é despertada novamente em cada leitor receptivo”[1]


[1] Schopenhauer, L&PM, 2006

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Bukowski e a indústria cultural


Acabei de ler o livro “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, que é uma seleção de trechos do diário escrito por Charles Bukowski em seus últimos anos de vida. O ódio à mediocridade demonstrado pelo escritor norte-americano, nascido na Alemanha, me fez lembrar a afirmação de Deleuze de que a vergonha de pertencer à raça humana é fonte de potência criadora tanto na filosofia quanto na literatura e na arte. Transformar vergonha e asco em potência criadora... Deleuze sabia realmente das coisas.

A cada vez que ia ao hipódromo (e ele ia quase todo dia), Bukowski reabastecia seu peito de ódio ao vazio que é a vida da grande maioria de nós. Quando se sentia sem inspiração precisava trazer à tona toda essa raiva. Abaixo, transcrevo um fragmento do último dia de seu diário:

“Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? Parece que seu único ato é a violência. São bons nisso. Realmente florescem. Flores de merda, emporcalhando nossas chances. O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.

“Mas eles pisoteiam a minha consciência com seu fracasso em áreas vitais. Por exemplo, todos os dias, volto do hipódromo apertando o rádio em diferentes estações, procurando música, música decente. Tudo é ruim, insípido, sem vida, sem melodia, indiferente. Mesmo assim, algumas dessas composições são vendidas aos milhões e seus criadores se consideram verdadeiros Artistas. É horrível, uma idiotice terrível entrando em jovens cabeças. Eles gostam disso. Cristo, dê merda a eles, e eles comem. Não conseguem discernir? Não conseguem ouvir? Não sentem a diluição, o mofo?

“Não posso acreditar que não haja nada. Continuo tentando novas rádios. Meu carro tem menos de um ano, mas a tinta preta do botão que aperto já está totalmente gasta. Agora o botão está branco, marfim, olhando para mim.

“Bem, é, existe a música clássica. Tenho que me acostumar com isso. Mas sei que ela vai estar sempre lá para mim. Escuto isso três a quatro horas por noite. Mas ainda continuo procurando outro tipo de música. (...) Pense em todas as pessoas vivas que nunca ouviram música decente. Não se admira que seus rostos estejam caindo, não se admira que matem sem pensar, não se admira que esteja faltando o coração.

(...)

“Os filmes são tão ruins quanto a música. Você ouve ou lê a crítica. Um grande filme, dizem. E daí saio para ver o tal filme. E sento lá me sentindo um grande idiota, me sentindo roubado, enganado. Posso adivinhar a próxima cena antes de acontecer. E os motivos óbvios dos personagens, o que os move, o que desejam, o que é importante para eles é tão infantil e patético, tão enfadonho e grosseiro. As partes românticas são irritantes, velhas. Bobagens preciosistas.

“Acho que a maioria das pessoas vê filmes demais. E, com certeza, os críticos. Quando dizem que um filme é ótimo, querem dizer que é ótimo em relação aos outros filmes que viram. Perderam a visão geral. São martelados com cada vez mais filmes novos. Simplesmente não sabem, estão perdidos no meio daquilo. Esqueceram o que é realmente ruim, que é a maior parte do que assistem.”[1]


[1] Páginas 147-149. Bukowski, Charles. Porto Alegre: L&PM, 1999.