
Publicado na Broca Literária.
Jornalista, lutador, escritor, leitor, inventor de abismos...

Meu conto "Cicatrizes urbanas, massa de gente e de luz" foi publicado na revista A Broca Literária, da The Drill Press.
O louco Nelson, trajando seus vestidos de noiva e vislumbrando beijos no asfalto, teve tempo e paciência de nos precaver contra os idiotas da objetividade, contra o copydesk - o cretino burocrata escravo da gramática da língua e também da gramática das relações de poder nas redações.
O tupiniquim maltrapilho idólatra da estúpida cultura do jornalismo estadunidense bradava: “Nada de adjetivações! Seja imparcial, seja objetivo! O bom repórter deve ser invisível!”.
Nelson, em resposta, apenas ria da vida ser como ele é. Ria por perceber como pequenos idiotas acumulavam grandes poderes e levavam a sério a pornochanchada que constituía seus reinados.
Os novos idiotas da objetividade não ocupam mais o praticamente extinto cargo de copydesk nas redações de nossos jornais. O diretor de redação não precisa mais do burocrata gramatical, pois hoje os repórteres já vêm domesticados de casa: subjetividades criadas, desde o nascimento, por nossas grandes figuras midiáticas, filhos da Globo e da Veja, felizes ruminantes de idéias pré-fabricadas e frases prontas, formados por faculdades de pedagogia tecnicista que ensinam a fazer um lead, mas os proíbem de pensar.
Hoje, quase todo cidadão tem um pouco de copydesk e teme e odeia os loucos parciais, passionais, tendenciosos que ousam dizer que o rei está nu e de pau duro e pronto pra meter na bunda de quem se curvar. Nosso cidadão-copydesk prefere seu existir anódino e falar de flores; mas, vejam bem, falar imparcialmente das flores, pra que ninguém se ofenda. As podres bases de suas vidas metrificadas, gramaticalmente corretas, seguras e cinzas, são abaladas a qualquer ruído autônomo, parcial e que assuma suas posturas e posições publicamente.
Os idiotas da objetividade contemporâneos, em uníssono, então, gritam: “Você é tendencioso até não mais poder, te odiamos!”. E como os idiotas da objetividade são o que são, meros pobres coitados de calças arriadas, se vêem ignorados, batem o pé, fazem bico, se descabelam e por fim suspiram sem forças: “Maldito engajado, queremos que nos deixe em paz com a objetividade de nossas vidas amorfas! Queremos a segurança de uma velhice tranqüila decorada com versos sobre amores, com belas rimas ricas e vazias. Por favor, nos deixe...”. Como se suas pobres rimas ricas sobre o nada de suas vidas supérfluas não fosse o que há de mais tendencioso, como se suas frases alienadas não servissem ao rei nu e excitado, como se a escrita e as idéias pudessem obedecer às leis dos cientistas que mandam que toda experiência, se repetida sob as mesmas condições materiais, deva apresentar os mesmos resultados em qualquer laboratório.
Nossas mentes deveriam ir muito além de nossos confortáveis e seguros quartos/laboratórios e nossas vidas deveriam servir a muito mais do que à luxúria dos reis. Pobres idiotas da objetividade são os mais tendenciosos de todos os seres, a diferença é que seguem felizes uma tendência que não nasce em seus peitos, mas no mercado.
Os idiotas são objetivos e livres: livres do fardo de pensarem por si próprios.

Ingênuos que lêem Foucault
Heróis que empalam garotos
Toda ajuda é hipócrita
Tortura é a solução
Morte à alteridade
Aplausos histéricos à autoridade
Dos caminhos o mais curto,
o mais fácil.
Fácil?
Desde que não atrapalhe o trânsito
e que não manche de sangue
os nossos sapatos, calçadas e filhos.
E desde que não perturbe nossas refeições.
Não nos embrulhe os estômagos
com a desagradável visão desses
pretos,
pobres,
sujos e maus
garotos estraçalhados.
Quem somos nós?
Pretensa elite que goza o mundo
e que cheia de medo
assina cheques, contratos e penas.
Elite que, cheia de dentes, berra:
Paz!
Justiça!
Honra!
Basta!
Basta de tiros em nossos quintais,
de mendigos em nossas calçadas,
de malabaristas em nossas esquinas.
Paz
no asfalto
na escola
no shopping.
Paz, no morro, engatilhada
Cano ainda quente
sujo de saliva e medo.
Pobreza pacificada,
silenciada até o próximo carnaval.
Salve a liberdade burguesa,
a invisibilidade do outro,
os gritos que não descem o morro!
Um viva aos novos heróis da pátria
com seus uniformes negros!
Carrascos com carteiras assinadas.
Durmamos em paz
e deixemos pra eles a honrada missão
da manutenção desse nosso gozo infindável...
I - O NEONIILISMO
Tempos de pensamento único. Entretanto disfarçado, maquiado, siliconado, sedutor. Ele se apresenta: “Nunca houve tamanho fluxo livre de idéias e saberes.” Mas então qual o motivo de tantos concordarem? “Porque é o sensato a se fazer” - responde. Mas isso é somente o cinismo da mentalidade hegemônica, que aprendeu a tudo absorver e anular. Então, ele adverte: “Não há mais espaço para revolução. Os que conseguirem se manter menos contaminados pelas idéias dominantes se tornarão outsiders, figuras periféricas vistas como párias, loucos, incompetentes, improdutivos, inadequados, irrelevantes.”
Por isso, a sensação de impotência frente a um mundo que parece permanecer impassível aos protestos, às críticas, ao inconformismo. Assim, as revoltas vão sendo abortadas antes de tomarem forma. O desânimo atinge o peito e as potencialidades de idéias livres são sufocadas. As melhores mentes e os espíritos mais sensíveis de nosso tempo são empurrados para um neoniilismo, e este é um terreno instável e perigoso; berço da violência dirigida ao próximo e a si mesmo.
II – AS MÁSCARAS PARTIDAS
Só que até a sensação de impotência nada mais é do que produto dessa indústria que nos traga. A história mostra que, um a um, cada paradigma inquestionável foi violado e humilhado quando o tempo certo chegou. Nada do que criamos é eterno. Tudo é mutável e frágil, por trás das impressionantes máscaras. Fortes não eram os impérios teocráticos, as propriedades feudais, a razão eurocêntrica ou a “superioridade” ariana. Forte é o homem que criou cada uma dessas terríveis fantasias, pois só ele tem o poder de destruí-las.
III – O CAMPO DE BATALHA
Se a ditadura do mercado, se a indústria onívora, são criações humanas, então não somos nós que temos que nos ajoelhar. O discurso onipresente, que a todo custo busca nos aliciar ou esmagar, sempre apresentará a realidade como forte e estruturada demais pra ser combatida. Mas isso é mentira. A mentira que sustenta a dominação de tão poucos sobre tantos. Que ao nos calar nos torna cúmplices. Que turva a visão, nos fazendo apontar dedos acusatórios para as vítimas. Mentira que nos torna assassinos. Culposo ou doloso, não importa, é crime de morte. Temos mais poder em nossas mãos do que querem que acreditemos. Cada recusa tem seu valor, cada ato tem sua conseqüência. Pequenas rupturas podem provocar impensáveis deslocamentos. Um dia uma negra se recusou a ceder seu lugar em um ônibus. Um dia um jovem judeu alemão transformou filosofia
Fechou as janelas. Uma após a outra, na ordem certa e no ritmo que julgou adequado. Abriu a torneira, sentiu o choque da água fria escorrendo contra as mãos suadas. Não, nunca arriscaria molhar o rosto. Não naquela hora. Tirou os sapatos. Primeiro o esquerdo, sempre ele. As meias não, não era ainda o momento para tirá-las. Caminhou até a cozinha e sentiu lentamente o frio dos azulejos atravessar as meias úmidas de suor. As chaves, quase se esqueceu das malditas chaves. Enfiou a mão nos bolsos e apalpou-as, sentiu os contornos de cada uma. Fez isso bem levemente, tocando-as com a mínima superfície das impressões digitais de seu indicador e polegar. Oito chaves, todas submetidas ao mesmo procedimento. Tirou o chaveiro do bolso e o depositou sobre a mesa. Pensou que nessas horas era muito bom não ter um gato para alimentar. Nem canários presos em gaiolas minúsculas cantando a tristeza. Muito menos peixes nadando em círculos, esperando a comida cair dos céus e afundar lentamente até suas ávidas bocas. Pensou também que não se lembra da última vez que usou a palavra “ávida”, e que ela, assim tirada de contexto, é uma bela palavra. Lembrou-se da namorada da adolescência, que certo dia disse que achava “umbrella” a palavra mais linda que conhecia. Engraçado não ter quase nenhuma lembrança nítida deste namoro, uma ou duas cenas, mas pareciam um filme que assistiu há tempos, não algo real. Abriu o pote de remédio e contou, um a um, 35 comprimidos. Abriu o segundo pote e contou, novamente com bastante cuidado, mais 35 comprimidos. Olhou para todos eles e calculou que, com certo esforço, conseguiria engolir cinco de cada vez e que repetindo isso por 14 vezes se acabariam os comprimidos. Mas engolir de uma só vez cinco comprimidos é uma coisa, repetir tal processo 14 vezes é outra bem diferente. Sua garganta era frágil, desde criança nunca pôde falar por muito tempo sem senti-la queimar.Seu pai dizia que isso era sabedoria da natureza, que junto com idéias fracas o havia provido uma garganta não menos fraca. Os anos passaram e a falta de uso atrofiou mais ainda sua capacidade de falar. Era rouco e falava, muito baixo, somente o que era essencial que fosse dito. Não, não conseguiria engolir tantos comprimidos assim. Precisava pensar em outra forma de fazer. Mas estava cansado e um pouco tonto. Dia quente, trabalho repetitivo, chefe gritando, colegas rindo, trânsito, buzinas, motores, choros de crianças, lamentos de velhos... um dia longo, sem dúvida alguma. Era melhor dormir, amanhã pensaria com calma a respeito do problema dos comprimidos.