Segunda-feira, Julho 21, 2008

Cicatrizes Urbanas, Massa de Gente e de Luz


…desde garotinha vi que era assim, tudo meio névoa, meio fábula. Vestidinhos feitos em casa, babadinhos, bordados, mamãe fazia vestidinhos lindos que eram orgulho meu e das primas. Tinha um branquinho que quando eu usava era pomba voando pela rua de terra e era um tal de "vai sujar a roupa, menina, pára de correr!"; correr nada, voar, mas ninguém entendia, ninguém nunca entende névoa e fábula. "Vem aqui, você ta linda assim de branco"; e era mão na cintura, na perna, no bumbum, é, eu dizia "bumbum". E ele encostava as coisas em mim e suava aquele cheiro insuportável de cachaça e fumo de corda e eu não sentia nada, nem medo, nem tristeza, nem nada… acho que não, acho que não sentia e queria era voar, ser pomba e ser fada. E tinha a missa, o padre e o incenso que trazia aquele mundo de fumaça e de anjos, mas ninguém entende de anjos-no-incenso, e tinham aquelas velhas de preto e de véu rezando com um ódio que só as velhas de preto conhecem, e a missa era tão mais delas que dos anjos… E a escola… na escola tinha a professora tão linda e tão boa, mas tinha muito mais, tinha o suficiente pr’eu voar pra longe. E chegando aqui, eram só luzes e carros, e tudo tão grande e eu tão pequena; São Paulo era massa de luz, de gente e de fumaça-sem-anjos. A noite era sempre mais bonita e brilhante, mas amanhecia e tudo era cinza e pichado. Mas desde sempre acho que as pichações têm lá sua dignidade, são respostas mais que justas de moleques esmagados, são não só o grito de “existo”, mas também ataques a quem os esmaga, são cicatrizes que deixam na cidade, pra mostrar que a luz dela é falsa e que muita gente chora em cada beco. Elas são o que de mais digno existe em São Paulo… mas não são névoa nem fábula, são gritos de dor e de guerra. To tão cansada, não havia espaço pra voar no interior de minas, na minhinfância perdida, e nem há vôo aqui na cidade grande, aqui ninguém voa e pomba é bicho odiado, é rato que voa e que caga em cabeças e calçadas, como se todos não fossem ratos cagões em cidades como São Paulo. E é sempre assim: "mina, senta aqui comigo que te pago uma breja", "mina, você é tão linda, quer um doce, quer um baseado?", “quer ir ao meu apê?”, e é suor com cheiro de perfume e é olhar de pegue-um-táxi-e-não-me-ligue e é gente de bem, com faculdade, com dinheiro que bate, que cospe e que fode. E ninguém sabe voar, tão todos tão presos e ocupados em prender que ninguém tem olhos pros olhos do outro. E to tão cansada e daqui de cima, tudo até que vira fábula, os carros tão pequenos lá embaixo formam esses rios de luzes vermelhas e amarelas e cada uma dessas janelinhas aqui nos prédios parece estrela… e se agora da minha janela eu voasse, ninguém iria notar, mas entre estrelas e rios de luzes tudo seria névoa e fábula…







Publicado na Broca Literária.

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Texto publicado n'A Broca Literária

Meu conto "Cicatrizes urbanas, massa de gente e de luz" foi publicado na revista A Broca Literária, da The Drill Press.


Daqui a uns dias eu postarei o texto aqui no blog.

Terça-feira, Junho 24, 2008

Aos novos idiotas da objetividade

O louco Nelson, trajando seus vestidos de noiva e vislumbrando beijos no asfalto, teve tempo e paciência de nos precaver contra os idiotas da objetividade, contra o copydesk - o cretino burocrata escravo da gramática da língua e também da gramática das relações de poder nas redações.


O tupiniquim maltrapilho idólatra da estúpida cultura do jornalismo estadunidense bradava: “Nada de adjetivações! Seja imparcial, seja objetivo! O bom repórter deve ser invisível!”.

Nelson, em resposta, apenas ria da vida ser como ele é. Ria por perceber como pequenos idiotas acumulavam grandes poderes e levavam a sério a pornochanchada que constituía seus reinados.

Os novos idiotas da objetividade não ocupam mais o praticamente extinto cargo de copydesk nas redações de nossos jornais. O diretor de redação não precisa mais do burocrata gramatical, pois hoje os repórteres já vêm domesticados de casa: subjetividades criadas, desde o nascimento, por nossas grandes figuras midiáticas, filhos da Globo e da Veja, felizes ruminantes de idéias pré-fabricadas e frases prontas, formados por faculdades de pedagogia tecnicista que ensinam a fazer um lead, mas os proíbem de pensar.

Hoje, quase todo cidadão tem um pouco de copydesk e teme e odeia os loucos parciais, passionais, tendenciosos que ousam dizer que o rei está nu e de pau duro e pronto pra meter na bunda de quem se curvar. Nosso cidadão-copydesk prefere seu existir anódino e falar de flores; mas, vejam bem, falar imparcialmente das flores, pra que ninguém se ofenda. As podres bases de suas vidas metrificadas, gramaticalmente corretas, seguras e cinzas, são abaladas a qualquer ruído autônomo, parcial e que assuma suas posturas e posições publicamente.

Os idiotas da objetividade contemporâneos, em uníssono, então, gritam: “Você é tendencioso até não mais poder, te odiamos!”. E como os idiotas da objetividade são o que são, meros pobres coitados de calças arriadas, se vêem ignorados, batem o pé, fazem bico, se descabelam e por fim suspiram sem forças: “Maldito engajado, queremos que nos deixe em paz com a objetividade de nossas vidas amorfas! Queremos a segurança de uma velhice tranqüila decorada com versos sobre amores, com belas rimas ricas e vazias. Por favor, nos deixe...”. Como se suas pobres rimas ricas sobre o nada de suas vidas supérfluas não fosse o que há de mais tendencioso, como se suas frases alienadas não servissem ao rei nu e excitado, como se a escrita e as idéias pudessem obedecer às leis dos cientistas que mandam que toda experiência, se repetida sob as mesmas condições materiais, deva apresentar os mesmos resultados em qualquer laboratório.

Nossas mentes deveriam ir muito além de nossos confortáveis e seguros quartos/laboratórios e nossas vidas deveriam servir a muito mais do que à luxúria dos reis. Pobres idiotas da objetividade são os mais tendenciosos de todos os seres, a diferença é que seguem felizes uma tendência que não nasce em seus peitos, mas no mercado.

Os idiotas são objetivos e livres: livres do fardo de pensarem por si próprios.

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

Um homem bem-sucedido


“Aquelas poucas notas serviriam pra exorcizar toda humilhação. Com as mãos irritantemente tremendo, tirou do bolso o pequeno maço e o estendeu para que ela o tomasse.”

“- Po... po... pode conferir, tá... tá tudo aí. – Que raiva que ele sentia. Tinha ensaiado tanto essa curta frase e agora gaguejava desse jeito!”

“Uma, duas, três... estava realmente tudo ali. O valor combinado. Sentiu um certo orgulho depois que ela conferiu o dinheiro e o guardou na bolsa. Estava agora um pouco mais confiante. Ela precisava de seu dinheiro. Pouco mais de um minuto após ele tirar as calças, tudo estava acabado. Ela se levantou, vestiu a calcinha e, sem que uma palavra saísse de sua boca ou expressão dominasse sua face, saiu do quarto.”

“Um misto de satisfação e medo o tomou. Vestiu as calças e apressadamente também saiu do quarto e desceu as escadas em direção à rua. Sentia-se forte, poderoso. Aquela mulher linda, aparentemente intocável para um garoto de treze anos, havia trepado com ele... bastou um punhado de dinheiro. Aquelas garotinhas que o desprezavam não chegavam aos pés dela. E daí que seus colegas tinham namoradas e ele não? Nenhuma tinha o corpo tão belo quanto o da vadia que acabara de foder.”

“Ali, naquele quarto, entendeu o que era preciso para nunca mais se sentir ridículo - teria que ganhar bastante dinheiro. Quanto mais, melhor. E toda sua vida foi dedicada a isso. Estudou para o vestibular pensado na grana que ganharia; acordou cedo para ir ao escritório, dia após dia, calculando quanto receberia pelas férias vendidas; fez e rompeu amizades de acordo com o lucro que imaginasse obter ou perder com elas; casar-se-ia por dinheiro se tivesse qualquer atrativo além de seu próprio dinheiro, mas não conseguindo atrair mulher alguma com posses iguais ou superiores às suas, casou-se por covardia mesmo, medo de envelhecer sozinho.”

“Quando chegou aos quarenta, percebeu que estava bebendo demais, que era horrível acordar para ir trabalhar, que sua esposa era uma estranha e seu filho um pequeno idiota... que um segundo após gozar na cara de uma nova puta, tudo perdia o sentido e chegava a sentir falta de ar, como se a vida pudesse ser perdida assim, por descuido, por não ter respirado da forma certa. Tinha medo que roubassem seu carro, via em cada moleque ‘malabarista de sinal’ ou vendedor de balas um potencial assassino, começou a beber pra poder ir trabalhar. Foi ao psiquiatra e pediu:”

“- Um pouco de paz, por favor! Eu pago!”

“Pequenos comprimidos que pelo peso e custo valiam, talvez, mais que ouro. Engolia-os conforme o psiquiatra indicara e as coisas melhoraram: sorria sem entender o porquê de fazê-lo, tremia menos e não tinha mais tanto nojo da esposa nem ódio do filho.”

“O que fazer de sua vida aos 45 anos? Comprou uma Harley e algumas jaquetas de couro, pagou putas mais caras, chegou a tomar coragem pra assediar algumas mulheres mais novas sem pagar diretamente para possuí-las (um jantar, uma viagem, uns presentinhos, apenas isso, nada em “cash”!), mas sempre que tentava se aproximar de alguma mulher mais interessante ou inteligente era tratado como o garotinho ridículo que julgava ter deixado de ser há tanto tempo. Isso dava uma angústia tremenda, mas nada que mais comprimidos, putas caras e álcool não dessem um jeito.”

“Com a idade, somou um pequeno comprimido azul aos que ingeria diariamente e, com isso, orgulhava-se de ao menos uma vez por semana comer uma garotinha com menos de 25 anos de idade. Um ano após se aposentar, teve um derrame. Nunca mais foi o mesmo. Mas o que o matou realmente foi aquela queda ao tropeçar na calçada em frente de casa, na manhã de segunda-feira.”

“Espero que perdoem o tom literário que usei, achei que tornaria tudo mais leve e fácil. Enfim, termino aqui essa breve biografia de um homem que podemos dizer que foi bem-sucedido. Ganhou todo o dinheiro que precisou para pagar pelo prazer de esquecer que nunca deixou de ser o garotinho assustado e covarde daquela fatídica tarde quando pagou por sua primeira mulher.” – Ao proferir essas últimas palavras, o homem magro, barbado e com olhos cheios de ódio e lágrimas, encarou o pequeno público: sua mãe, com o rosto repuxado pelo botox e um leve sorriso nos lábios; três casais de tios com expressões que variavam do susto ao desprezo; dois velhos colegas de chope de seu pai, que pareciam raivosos e surpresos; e um pequeno cachorro que se coçava indiferente ao enterro e ao discurso que um filho fazia em homenagem ao seu recém-falecido pai, antes que jogassem as primeiras pás de terra sobre o caro e luxuoso caixão.

Segunda-feira, Outubro 29, 2007

TROPA DA ELITE



Ingênuos que lêem Foucault

Heróis que empalam garotos

Toda ajuda é hipócrita

Tortura é a solução

Morte à alteridade

Aplausos histéricos à autoridade

Dos caminhos o mais curto,

o mais fácil.

Fácil?

Desde que não atrapalhe o trânsito

e que não manche de sangue

os nossos sapatos, calçadas e filhos.

E desde que não perturbe nossas refeições.

Não nos embrulhe os estômagos

com a desagradável visão desses

pretos,

pobres,

sujos e maus

garotos estraçalhados.


Quem somos nós?


Pretensa elite que goza o mundo

e que cheia de medo

assina cheques, contratos e penas.

Elite que, cheia de dentes, berra:

Paz!

Justiça!

Honra!

Basta!

Basta de tiros em nossos quintais,

de mendigos em nossas calçadas,

de malabaristas em nossas esquinas.

Paz

no asfalto

na escola

no shopping.

Paz, no morro, engatilhada

Cano ainda quente

sujo de saliva e medo.


Pobreza pacificada,

silenciada até o próximo carnaval.


Salve a liberdade burguesa,

a invisibilidade do outro,

os gritos que não descem o morro!

Um viva aos novos heróis da pátria

com seus uniformes negros!

Carrascos com carteiras assinadas.

Durmamos em paz

e deixemos pra eles a honrada missão

da manutenção desse nosso gozo infindável...

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Três passos para uma guerra


I - O NEONIILISMO
Tempos de pensamento único. Entretanto disfarçado, maquiado, siliconado, sedutor. Ele se apresenta: “Nunca houve tamanho fluxo livre de idéias e saberes.” Mas então qual o motivo de tantos concordarem? “Porque é o sensato a se fazer” - responde. Mas isso é somente o cinismo da mentalidade hegemônica, que aprendeu a tudo absorver e anular. Então, ele adverte: “Não há mais espaço para revolução. Os que conseguirem se manter menos contaminados pelas idéias dominantes se tornarão outsiders, figuras periféricas vistas como párias, loucos, incompetentes, improdutivos, inadequados, irrelevantes.”
Por isso, a sensação de impotência frente a um mundo que parece permanecer impassível aos protestos, às críticas, ao inconformismo. Assim, as revoltas vão sendo abortadas antes de tomarem forma. O desânimo atinge o peito e as potencialidades de idéias livres são sufocadas. As melhores mentes e os espíritos mais sensíveis de nosso tempo são empurrados para um neoniilismo, e este é um terreno instável e perigoso; berço da violência dirigida ao próximo e a si mesmo.

II – AS MÁSCARAS PARTIDAS
Só que até a sensação de impotência nada mais é do que produto dessa indústria que nos traga. A história mostra que, um a um, cada paradigma inquestionável foi violado e humilhado quando o tempo certo chegou. Nada do que criamos é eterno. Tudo é mutável e frágil, por trás das impressionantes máscaras. Fortes não eram os impérios teocráticos, as propriedades feudais, a razão eurocêntrica ou a “superioridade” ariana. Forte é o homem que criou cada uma dessas terríveis fantasias, pois só ele tem o poder de destruí-las.

III – O CAMPO DE BATALHA
Se a ditadura do mercado, se a indústria onívora, são criações humanas, então não somos nós que temos que nos ajoelhar. O discurso onipresente, que a todo custo busca nos aliciar ou esmagar, sempre apresentará a realidade como forte e estruturada demais pra ser combatida. Mas isso é mentira. A mentira que sustenta a dominação de tão poucos sobre tantos. Que ao nos calar nos torna cúmplices. Que turva a visão, nos fazendo apontar dedos acusatórios para as vítimas. Mentira que nos torna assassinos. Culposo ou doloso, não importa, é crime de morte. Temos mais poder em nossas mãos do que querem que acreditemos. Cada recusa tem seu valor, cada ato tem sua conseqüência. Pequenas rupturas podem provocar impensáveis deslocamentos. Um dia uma negra se recusou a ceder seu lugar em um ônibus. Um dia um jovem judeu alemão transformou filosofia em arma. Um dia decidimos dizer não; deixamos as mãos sujas de sangue, pois acordamos para o fato de que lavá-las, como sempre fazemos, é ato abominável e covarde.

Sábado, Julho 14, 2007

UMBRELLA - oito chaves e meias úmidas de suor



Fechou as janelas. Uma após a outra, na ordem certa e no ritmo que julgou adequado. Abriu a torneira, sentiu o choque da água fria escorrendo contra as mãos suadas. Não, nunca arriscaria molhar o rosto. Não naquela hora. Tirou os sapatos. Primeiro o esquerdo, sempre ele. As meias não, não era ainda o momento para tirá-las. Caminhou até a cozinha e sentiu lentamente o frio dos azulejos atravessar as meias úmidas de suor. As chaves, quase se esqueceu das malditas chaves. Enfiou a mão nos bolsos e apalpou-as, sentiu os contornos de cada uma. Fez isso bem levemente, tocando-as com a mínima superfície das impressões digitais de seu indicador e polegar. Oito chaves, todas submetidas ao mesmo procedimento. Tirou o chaveiro do bolso e o depositou sobre a mesa. Pensou que nessas horas era muito bom não ter um gato para alimentar. Nem canários presos em gaiolas minúsculas cantando a tristeza. Muito menos peixes nadando em círculos, esperando a comida cair dos céus e afundar lentamente até suas ávidas bocas. Pensou também que não se lembra da última vez que usou a palavra “ávida”, e que ela, assim tirada de contexto, é uma bela palavra. Lembrou-se da namorada da adolescência, que certo dia disse que achava “umbrella” a palavra mais linda que conhecia. Engraçado não ter quase nenhuma lembrança nítida deste namoro, uma ou duas cenas, mas pareciam um filme que assistiu há tempos, não algo real. Abriu o pote de remédio e contou, um a um, 35 comprimidos. Abriu o segundo pote e contou, novamente com bastante cuidado, mais 35 comprimidos. Olhou para todos eles e calculou que, com certo esforço, conseguiria engolir cinco de cada vez e que repetindo isso por 14 vezes se acabariam os comprimidos. Mas engolir de uma só vez cinco comprimidos é uma coisa, repetir tal processo 14 vezes é outra bem diferente. Sua garganta era frágil, desde criança nunca pôde falar por muito tempo sem senti-la queimar.Seu pai dizia que isso era sabedoria da natureza, que junto com idéias fracas o havia provido uma garganta não menos fraca. Os anos passaram e a falta de uso atrofiou mais ainda sua capacidade de falar. Era rouco e falava, muito baixo, somente o que era essencial que fosse dito. Não, não conseguiria engolir tantos comprimidos assim. Precisava pensar em outra forma de fazer. Mas estava cansado e um pouco tonto. Dia quente, trabalho repetitivo, chefe gritando, colegas rindo, trânsito, buzinas, motores, choros de crianças, lamentos de velhos... um dia longo, sem dúvida alguma. Era melhor dormir, amanhã pensaria com calma a respeito do problema dos comprimidos.