quinta-feira, maio 24, 2007

Liberdade

Você é livre

Para escolher

A cor das tuas cortinas

Dos teus tapetes

Dos teus cabelos

Da tua empregada

Você é livre

Para decidir se quer

Beber ou cheirar

Fumar ou injetar

Malhar ou engordar

Envelhecer ou se lipoaspirar

Comer ou dar

Corromper ou denunciar

Demitir ou humilhar

Socar ou abraçar

Você é livre

Para mudar

O canal da tua televisão

A marca do teu som

O tamanho do teu celular

Ou mesmo para determinar

Se quer versos livres ou rimar

Você é livre

Mas experimente

Distribuir e não vender

Pisar na grama e não no homem

Tentar entender

Perguntar o porquê

De comprar

De pagar

De vender

De calar

Vendo a polícia matar

O jornalista mentir

O advogado omitir

O juiz humilhar

A madame sorrir

Pelo acordo velado que a permite

Ser livre e lucrar

Você é livre?

6 comentários:

Christina disse...

Quem é livre?
Quem consegue ser livre?

LuFrei disse...

Isso é forte como carro bomba!

APON disse...

A excelência de um poema não está no número de palavras nem a de um autor pela extensão de sua obra.
Taí - o poeta e a substância de seu pó-ético, diluído na forma despojada e leve, rediografando o circuito perverso de nossas associações no circuito fechado das nossas liberdades.

Pode ficar todo prosa que sua prosa merece e que venham outros tantos poemas que nós, aqui, degustaremos agradecidos.
Abraço, muita saudade,

Meco

Pedro disse...

Não há como se colocar fora do "sistema". Hoje as possibilidades de resistência estão na ação nos interstícios do meio. Já não é a afirmação dura e dicotômica de outros tempos, mas uma série de pequenas tomadas de decisão e renúncias que vamos operando ao curso de nossas vidas. Na qualidade dos nossos agenciamentos, no grau de verdade que impomos a nós mesmos, no escutar ao nosso termômetro interior, e não à terrível e sedutora voz simultaneamente plural e monocórdia do senso comum que arregimenta ao seu modelo de controle mais e mais ovelhinhas desejosas. Driblar esse controle, fazer de nossa desmedida a nossa medida, realizando o necessário pela nossa sobrevivência sem perder de vista que o controle (ou os sistemas de controle, ou o poder, ou o capitalismo) tenta o tempo todo nos separar do que podemos ou somos capazes. Se cada um estiver potente dentro de suas possibilidades e afimando uma ética de vida não necessariamente alinhada à publicitariedade e ao mercado, estará conectado à sua criatividade, e consequentemente enfraquecendo o poder de controle dessa nova religião sem Deus que chamamos mercado. As estratégias de controle avançam firmemente contra as fileiras do pensamento: a associação quase imediata que fazemos entre o saber e uma "riqueza"; a busca incessante por graus mais elevados de erudição, sem por um momento experimentar a liberdade da auscultação da multidão de possibilidades que está latente no nosso sopro de vida. A base da criação é a pobreza, entendida em múltiplas acepções. É a sede de saber e entender que leva aos livros; é o vazio e a louca insatisfação que levam o sujeito a se jogar na arte, e tb na vida. Agir no cerne dos afetos, atuar quase cirurgicamente onde se enxerga os nós que desaceleram a nossa potência. Uma filosofia da pobreza, da pobreza que reinventa a vida, da pobreza das redes de solidariedade que vemos abrigando cada vez mais gente. Afirmemos nossa pobreza, a pobreza da condição humana, para então nos libertarmos desse transcendentalismo doentio, dessa ideologia de padreco brocha, de madame com peruca de laquê com filhote de poodle que pendura cartaz de BASTA! na varanda de 1 milhão de dólares de frente para a Lagoa. É flagrante a decrepitude da abundância dos que sustentam, brutalizados, esse modelo de putaria generalizada com a coisa pública, esse teatro tiste e grotesco das aparências. Atuemos no plano de imanência descrito por Deleuze; vida real, vida imanente, sem o monolitismo sórdido dessa religião escrota de show business que vemos tanto trouxa engolir, para depois ficar preso entre e a depressão e a compulsão. O sistema está aí o tempo todo se oferecendo para formatar o nosso desejo, as nossas expectativas, o que devemos querer e sentir. Examinemos atentamente a esses oferecimentos, a esta sedução, porque ela é uma ilusão fudida. Só nós mesmos somos capazes de saber do que precisamos, para assim alcançarmos a liberdade.

Alexandre disse...

Texto perfeito!
Mas se somos livres ou não, não podemos afirmar de fato, pelo fato que nos oprime e liberta ao mesmo tempo: a relatividade das coisas! Mas, vamos vivendo assim, livres para determinar 'o que' e 'quem somos' realmente.
Abraços!

...ps: o que é ser livre?

Anjo disse...

Olá. Obrigada pelo comentário no manufatura, devo dizer que não mudei minha temática, o erotismo é só uma das minhas. Mas agora no Bar, com certeza vamos conhecer bem mais a obra um do outro. Seja bem vindo. Beijão
visite um dos meus cantinhos:
www.memorteme.blogspot.com