segunda-feira, maio 22, 2006

Do mito à utopia chegamos ao vazio... mas resta a esperança da pandemia



Na antiguidade, tínhamos os heróis - fundadores da realidade por meio do mito. Passado o tempo, com o fortalecimento da ciência, jogamos a mitologia para o lado e miramos, com nossos olhares positivistas e admirados, o futuro utópico. Os heróis, que do passado definiam nossas vidas dizendo quem éramos, foram enterrados pela razão. A razão, apaixonada pela crença em seu próprio poder, projetou no futuro científico o sonho de um mundo de progresso e desenvolvimento.
O tempo (como era de se esperar) passou e com isso veio a decepção. Decepção de vermos que nossa política não acompanhava nossa ciência, que nosso egoísmo continuava tão brutal como nos tempos obscuros. Tecnologia não trouxe menos carga de trabalho, mas sim desemprego. A otimização dos meios de produção não acabou com a desigualdade, mas criou novos faraós. Nasceram impérios com base no suor e na fome da mão-de-obra vinda do campo e recém-transformada em massa. Massa esta, que um dia foi vista como germe de uma possível revolução. Revolução abortada por seus líderes que (como hoje parece ser óbvio que aconteceria, mas que na época foi triste decepção e traição) se enamoraram pelo poder, tornando-o totalitário e terrível. Outra dificuldade para a sonhada revolução foi impossibilidade de transformar massa em conjunto de indivíduos, em força intelectual e física contra um império que se fez gostar disfarçando-se de democracia.
O sistema enfraqueceu a possibilidade de revolta, não com a mão pesada da ditadura, mas com a sedução do consumo. O ter muito facilmente substituiu o ser. O ser não mais conta. O vazio da sobrevivência tomou o lugar do que um dia foi utopia.
Hoje, sem mitos do passado ou utopias do futuro, o homem já nasce cínico. Afunda (pensando flutuar) no vácuo que se tornou essa existência sem fundamento e sem projeção. Vida, dita pós-moderna, sem história (que lhe dê bases de sustentação) e sem esperança (que gere força e possibilidade de ação). Neste limbo, nos distraímos cuidando de sobreviver e desistimos de lutar por não sabermos como.
Mas quem sabe ainda exista esperança. Talvez ainda sem forma definida, mas adivinhada ou imaginada porque sentida ou, ao menos, sonhada (e para nós que até o parágrafo anterior tínhamos o nada, isso já é força!). A esperança é que alguns ainda insistam em pensar. Alguns poucos teimosos se recusam a abrir mão do direito que elaborar novas questões ou de dar voz a antigas. Enquanto houver sussurros e/ou gritos dissonantes há possibilidade de algo que não sabemos o que é, mas que só por não ser senso-comum talvez já valha a pena. Por isso, não vamos subestimar o poder de uma conversa entre amigos inconformados, mesmo que a principio ela pareça (ou mesmo seja) somente catarse. Temos que acreditar na possibilidade de contágio. Não seria assim tão surpreendente se as vozes dos inconformados um dia se multiplicassem, pois antes disso, outras epidemias e pandemias já existiram e sabemos dos estragos que elas podem fazer por mais forte que o sistema imunológico do organismo atingido fosse considerado até então.

Um comentário:

Pedro disse...

Fala Thomás! Parabéns pelo texto cara, muito bom. Gostei muito desse fragmento, até coloquei no meu arquivo de citações:

"Hoje, sem mitos do passado ou utopias do futuro, o homem já nasce cínico. Afunda (pensando flutuar) no vácuo que se tornou essa existência sem fundamento e sem projeção. Vida, dita pós-moderna, sem história (que lhe dê bases de sustentação) e sem esperança (que gere força e possibilidade de ação). Neste limbo, nos distraímos cuidando de sobreviver e desistimos de lutar por não sabermos como. Por isso, não vamos subestimar o poder de uma conversa entre amigos inconformados, mesmo que a principio ela pareça (ou mesmo seja) somente catarse. Temos que acreditar na possibilidade de contágio."

Acho que a troca de idéias entre inconformados é fundamental. Espero que possamos ter muitas! Parabéns e um forte abraço!