segunda-feira, outubro 01, 2007

Três passos para uma guerra


I - O NEONIILISMO
Tempos de pensamento único. Entretanto disfarçado, maquiado, siliconado, sedutor. Ele se apresenta: “Nunca houve tamanho fluxo livre de idéias e saberes.” Mas então qual o motivo de tantos concordarem? “Porque é o sensato a se fazer” - responde. Mas isso é somente o cinismo da mentalidade hegemônica, que aprendeu a tudo absorver e anular. Então, ele adverte: “Não há mais espaço para revolução. Os que conseguirem se manter menos contaminados pelas idéias dominantes se tornarão outsiders, figuras periféricas vistas como párias, loucos, incompetentes, improdutivos, inadequados, irrelevantes.”
Por isso, a sensação de impotência frente a um mundo que parece permanecer impassível aos protestos, às críticas, ao inconformismo. Assim, as revoltas vão sendo abortadas antes de tomarem forma. O desânimo atinge o peito e as potencialidades de idéias livres são sufocadas. As melhores mentes e os espíritos mais sensíveis de nosso tempo são empurrados para um neoniilismo, e este é um terreno instável e perigoso; berço da violência dirigida ao próximo e a si mesmo.

II – AS MÁSCARAS PARTIDAS
Só que até a sensação de impotência nada mais é do que produto dessa indústria que nos traga. A história mostra que, um a um, cada paradigma inquestionável foi violado e humilhado quando o tempo certo chegou. Nada do que criamos é eterno. Tudo é mutável e frágil, por trás das impressionantes máscaras. Fortes não eram os impérios teocráticos, as propriedades feudais, a razão eurocêntrica ou a “superioridade” ariana. Forte é o homem que criou cada uma dessas terríveis fantasias, pois só ele tem o poder de destruí-las.

III – O CAMPO DE BATALHA
Se a ditadura do mercado, se a indústria onívora, são criações humanas, então não somos nós que temos que nos ajoelhar. O discurso onipresente, que a todo custo busca nos aliciar ou esmagar, sempre apresentará a realidade como forte e estruturada demais pra ser combatida. Mas isso é mentira. A mentira que sustenta a dominação de tão poucos sobre tantos. Que ao nos calar nos torna cúmplices. Que turva a visão, nos fazendo apontar dedos acusatórios para as vítimas. Mentira que nos torna assassinos. Culposo ou doloso, não importa, é crime de morte. Temos mais poder em nossas mãos do que querem que acreditemos. Cada recusa tem seu valor, cada ato tem sua conseqüência. Pequenas rupturas podem provocar impensáveis deslocamentos. Um dia uma negra se recusou a ceder seu lugar em um ônibus. Um dia um jovem judeu alemão transformou filosofia em arma. Um dia decidimos dizer não; deixamos as mãos sujas de sangue, pois acordamos para o fato de que lavá-las, como sempre fazemos, é ato abominável e covarde.

2 comentários:

Pedro disse...

Concordo com seu texto. A despolitização é estratégia de dominação da hegemonia. Imagina o grande escândalo que seria se o conceito de poder fizesse parte do vocabulário do discurso midiático, da comunicação de massas. A estratégia é negar racionalidade à plebe, fazê-la entorpecer no consumo e na superficialidade, enquanto paralelamente vai sendo construído o ser frágil e dependente dessa estrutura valorativa que opera no interior das micro relações até as altas esferas de tomada de decisão. A hegemonia vai gerando hordas de imbecis, e as fachadas resplandecentes do capital e as vielas escuras do outro lado da moeda. As pessoas que ainda conseguem pensar se dividem no entendimento desse poder e da postura política a adotar em tempos onde o posicionamento estético e a afirmação de um estilo de viver ocupa o espaço que em algumas gerações anteriores parecia tomado pelo pensamento político. Há os que pensam numa resistência heróica, como os sobreviventes marxistas, embora na prática consolidem um distanciamento do discurso; há os que vêem o poder como uma bruma movediça que traga a tudo e a todos na sua pesada onipresença; e há a comunidade estética do bem viver, do carpe diem, das classes abastadas e das não tão abastadas assim que se lambuzam com o que lhes parece ser uma chegada ao mundo retratado na publicidade feita para conectar-se aos sonhos dos ricos.

Cabe a nós criar nosso movimento político, à base de muita filosofia e arte, para que operemos nas brechas desse sistema de forças em deslocamento. Como vc bem disse: “Temos mais poder em nossas mãos do que querem que acreditemos. Cada recusa tem seu valor, cada ato tem sua conseqüência. Pequenas rupturas podem provocar impensáveis deslocamentos.”
Abaixo um trecho de Matei Calinescu:

“Se aceitamos que existem duas modernidades conflitivas e interdependentes – uma socialmente progressiva, racionalista, competitiva e tecnológica; a outra culturalmente crítica e autocrítica, inclinada a desmitificar os valores básicos da primeira – estaremos melhor preparados para compreender surpreendentes ambivalências e paradoxos da linguagem da modernidade.”

Parabéns pelo texto e pela força de seu pensamento.
Um abraço.

Thorpo disse...

Pedro, é sempre um prazer poder estabelecer esses diálogos com vc. De verdade, teus comentários enriquecem demais tudo o que escrevo aqui. É o tipo de contribuição que me estimula a continuar produzindo, teimando nesse meu caminho torto e arriscado que é o que escolhi.
Cara, precisamos num futuro próximo escrever uns artigos em parceria pra mandarmos pra congresso ou publicação em revista.
Agradeço mais uma vez, meu amigo.