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quarta-feira, julho 08, 2015

A gigantesca máquina paranoica



Uma gigantesca máquina paranoica é alimentada diariamente pela cultura midiática de estímulo à violência. A violência de sheherazades que amarra em postes e espanca em praça pública; a violência de datenas, rezendes e similares que “escracha” o pobre e cala diante da fome e do abandono; a violência dos pastores que quer castrar o mundo enquanto se esbalda em uma orgia de dízimos; e, principalmente, a violência de terno bem alinhado, cabelos bem penteados e tom de voz sensato e profissional que escolhe a dedo o que deve ou não ser mostrado no jornal que “todo mundo” assiste antes da novela.

E, receptiva a isso tudo, temos a nossa chamada elite - tão acostumada a fazer vista grossa para tudo o que não interessa que seja desvelado. Assim, diante das barbaridades de Cunha, optam pelo silêncio as mesmas vozes que se ergueram para apoiar a micareta verde e amarela promovida pela direita fascista e patrocinada pela grande mídia que, na avenida Paulista, pedia impeachment, volta de militares torturadores e o fim da corrupção, de Paulo Freire e do Fórum de SP.

Terceirizado, babando transgênicos pelos cantos da boca, o nosso cidadão de bem aplaude o encarceramento juvenil porque aprendeu a viver com medo e ódio. Gente pervertida que adora postar fotos fofas dos filhos enquanto se excita defendendo o assassinato de mais um “menor”.

Vontade de fugir disso tudo. Mas se for mesmo fugir, que seja uma fuga deleuzeana, ativa, revolucionária, sempre à espreita, olhar atento para qualquer arma que possa ser achada, descoberta ou inventada pelo caminho.

terça-feira, outubro 14, 2014

A locomotiva do país

foto: Thomás RPO


A locomotiva do país passa por cima,
Dos pobres,
Dos negros,
Dos gays,
Da inteligência
De todos nós.

Em São Paulo, Feliciano sorri.
E em meio a uma massa de almas cansadas e gananciosas,
Dois homens são espancados porque se amam,
Porque se desejam, se abraçam, se beijam.
Porque existem.

A cidade não pode parar,
E se movimenta orgulhosa a 10km/h
Em um trânsito metodicamente enlouquecedor
Enquanto espalha tachinhas em ciclovias.

Em camarotes
Os vips ouvem Seo Jorge
Vaiam avanços sociais
Celebram a desigualdade
Porque podem pagar por ela
E quando a festa acaba e voltam pra casa
Trancam portas, ligam alarmes e sonham com facadas no baço.

Serra brindou com Alckmin
(Água mineral francesa refrescando a seca paulista)
Suplicy melancolicamente cantou pela última vez Blowin’ in the Wind
E orgulhosos os eleitores de Tiririca bradaram
Que nordestinos não sabem votar.

Criolo cantou que não existe amor em SP
E eu quase concordei.
Mas ele existe
Nos guetos
Nas favelas misteriosamente incendiadas
Debaixo das sombras das últimas árvores
E ele é plural e se chama "minorias".